terça-feira, 23 de agosto de 2011

A idade invisível

Durante vários anos propagou-se a ideia de que a chamada terceira idade seria maravilhosa e representaria um momento de grande oportunidade para desfrutar aquilo que a vida não permitiu em anos anteriores. Empresas do setor de turismo e hotelaria, por exemplo, criaram pacotes de serviços de lazer e entretenimento para que as pessoas dessa idade tivessem opções sobre como usar o dinheiro de suas aposentadorias. Academias de ginástica e escolas de natação também procuraram prospectar possibilidades de consumo para seus serviços junto a esse público.

Toda essa expectativa e desejo de realização de negócios não se concretizou ou foi efetivada apenas em parte. No Brasil, muitas pessoas da terceira idade sustentam suas famílias com o dinheiro que recebem, incluindo-se aí filhos, genros, noras e netos. A imagem da terceira idade no Brasil não é aquela retratada nas imagens das novelas da TV Globo.

A demografia brasileira tem sofrido forte alteração nos últimos anos e irá se transformar ainda mais. Segundo o relatório Envelhecendo em um Brasil Mais Velho, produzido pelo Banco Mundial, dentro em breve o Brasil será um país de idosos. Conforme estimativa dessa instituição, quase 50% dos habitantes brasileiros possuirá 65 anos ou mais de idade em 2050. Parece algo longínquo. Mas em termos demográficos não é tão remoto assim. A mídia de difusão notifica, nesse sentido, que o Brasil vive o paradoxo de crescer enquanto envelhece.

Empresas e governos (municipal, estadual e federal) não estão preparados para esse fenômeno. São poucos os produtos e serviços efetivamente formatados e oferecidos para a terceira idade. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais de 10% da população brasileira já possuem 60 anos ou mais de idade e não encontram suporte em ruas, avenidas, rodoviárias ou aeroportos, por exemplo, para sua condição física. A indústria imobiliária, em outro exemplo, continua construindo inúmeros edifícios residenciais que estão a milhas e milhas de distância de oferecerem estrutura compatível para esses pouco mais de 10% da população.

A elaboração de anúncios e a divulgação de produtos posicionados para o consumo por parte da terceira idade, também não parece ser uma opção para as empresas. Ações nesse sentido podem gerar dissonância cognitiva e comprometer a imagem de marcas empresariais ou de linhas específicas de produtos. Pensando bem, como seriam os modelos das propagandas na TV divulgando produtos para o consumo na terceira idade? Certamente, eles se chocariam com a juventude e a modernidade do mundo ocidental.

Por enquanto, a terceira idade é um fenômeno silencioso e quase invisível no Brasil. E isso, mesmo se tratando de consumo!

Referências Conexas

FARIAS, Salomão A. Avaliação simultânea dos determinantes da satisfação do consumidor: um estudo no segmento da terceira idade. São Paulo: USP, 1998. (Tese de Doutorado em Administração)

MATHUR, Anil; MOSCHIS, George P.; LEE, Euhun. A longitudinal study of the effects of life status changes on changes in consumer preferences. Journal of the Academy of Marketing Science, v. 36, n. 2, p. 234-246, 2008.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Citação de artigos: o paradoxo dos cinco anos

Qual é a lógica que orienta decisões editoriais em que os artigos acadêmico-científicos publicados nos últimos cinco anos são as referências mais importantes para uso em outros artigos que se queira submeter à publicação? Trata-se apenas do conceito definido como estado-da-arte, em que esses artigos trazem o conhecimento em seu estado mais atual, com descobertas e proposições mais recentes?

Os artigos publicados nos últimos cinco anos são, de fato, aqueles mais importantes e consistentes? A contribuição de um artigo tem data marcada para acabar ou prazo de validade, como um produto perecível?

Se a pesquisa que ontem-hoje se fez e que hoje-amanhã se publica não é valorizada por mais do que cinco anos, qual o sentido de fazê-la? Como e com base em quais critérios se definem a consistência e a relevância temporal do conhecimento produzido? O conhecimento publicado em periódicos está fadado ao consumo em um horizonte máximo de meia década? Esse é o limite?

A quem serve tal decisão? Serve aos pesquisadores e autores dos artigos? Alguém lembrou de perguntar qual o papel da indústria editorial para a construção dessa lógica, especialmente o segmento de publicação de periódicos científicos? As instituições de ensino e pesquisa, bem como as agências de fomento à pesquisa têm, também, algo a dizer acerca dessa construção?

Referências Conexas

CANAGARAJAH, A. Suresh. “Nondiscursive” requirements in academic publishing, material resources of periphery scholars, and the politics of knowledge production. Written Communication, v. 13, n. 4, p. 435-472, 1996.

GODIN, Benoit; GINGRAS, Yves. The place of universities in the system of knowledge production. Research Policy, v. 29, n.2, p. 273-278, 2000.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Games e brinquedos de guerra são desnecessários

A sociedade norueguesa reagiu de uma forma inusitada ao ato mais doloroso de sua história em tempos de paz. Deu no New York Times que agentes do mercado varejista na Noruega, como lojas e supermercados, estão retirando de suas prateleiras videogames e brinquedos de guerra. Trata-se de uma medida em respeito às vítimas dos recentes atentados ocorridos naquele país, dado que o autor dos atentados era usuário assíduo do World of Warcraft. É uma medida não só incomum, como também algo que contraria a indústria do entretenimento e do lazer pessoal e doméstico – indústria em torno da qual são gerados, de forma crescente, bilhões de dólares a cada ano. Com efeito, a Noruega ficará melhor com essa iniciativa. Agentes de mercado em outros países poderiam seguir o exemplo. Especialmente aqueles que tanto apregoam responsabilidade social em práticas de mercado.

Esse post compõe uma série chamada “Web News”. Trata-se de observações realizadas acerca de notícias relacionadas à temática de cultura e consumo publicadas na World Wide Web.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Onde anda a poesia?

Nos dias de hoje, as editoras fazem pouco ou quase nenhum esforço para publicar poesia. Fácil de constatar. Basta olhar o catálogo de livros das editoras brasileiras e de outros cantos do mundo. Poesia não gera lucro. Livros de poesia não estão nas vitrinas das livrarias. Poetas não produzem bestsellers.

Qual o último livro de poesia que foi lido? Onze entre cada dez pessoas dirá que não lembra. A poesia ficou confinada aos concursos. Está restrita às aulas do ensino básico. Faz parte da linguagem e do universo conhecido como politicamente correto. Compõe a cena, mas ninguém vê, tampouco lê.

Lidar com poesia é ter imaginação, ser sonhador. Coloquialmente, é viver com a cabeça nas nuvens. Algo pejorativo em uma sociedade que reivindica pragmatismo, racionalidade, rapidez, objetividade. Não há interesse em poesia. Escrever poesia é perder tempo. Falar em poesia é soar estranho. Não se consome poesia.

Referências Conexas

MORICONI, Italo. Como e porque ler poesia brasileira do século XX. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

PETER, Middleton. Distant reading: performance, readership, and consumption in contemporary poetry. Tuscaloosa: University of Alabama Press, 2005.

SHERRY Jr., John F.; SCHOUTEN, John W. A role for poetry in consumer research. Journal of Consumer Research, v. 29, n. 2, p. 218-234, 2002.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Mirante da Paz, casa para a paz

 
A paz está no imaginário de todos. Simbolicamente, assume inúmeras possibilidades. Entre elas, junções como morro-asfalto, favela-bairro, pobre-rico. Tais junções sugerem uma espécie de compreensão de que a paz está nos segundos elementos: asfalto, bairro, rico. A violência, seria o oposto. A junção, portanto, engendraria uma síntese: paz. Governos e gente desavisada pensam assim.

 
Unidades de Polícia Pacificadora no Rio de Janeiro operam dentro dessa lógica. O discurso é o da ocupação, quando, a rigor, o que parece resolver é a presença do Estado com serviços básicos e não apenas com polícia.

 
A paisagem estonteante de alguns lugares do Rio de Janeiro até comungam para promover essa síntese. A paz pode até ser representada por meio do anúncio da venda de residências na favela, afixado em cima do grafite que faz parte do ponto turístico. Comércio e, sobretudo, consumo não imaginados em outras circunstâncias. O bom é que, nesse contexto, a paz pode ser tomada por meio de uma de suas principais metáforas: a casa.

Obs.: as fotos acima são do Mirante da Paz, instalado entre o bairro de Ipanema e a Comunidade do Pavãozinho, no Rio de Janeiro.

Esse post compõe uma série chamada “Nota de Viagem”. Trata-se de um conjunto de pequenas observações realizadas durante viagens.

sábado, 23 de julho de 2011

As Copas, o Paraguai, Larissa e a construção de “celebridades”

Ela estava lá. Na Copa do Mundo. Na África do Sul. Vestida com a camisa da seleção paraguaia, usando um decote generoso e com um telefone entre os seios, Larissa atraiu lentes de fotógrafos e câmeras de televisão. Um jogo, dezenas de imagens e se fez uma celebridade. Dessas que editores da mídia de difusão agradecem quando vêem aparecer e leitores e espectadores têm prazer em consumir.

A mídia, que nessas horas não recebe a denominação de imprensa, transforma o inusitado em um produto. Produto para sobrevivência. Para venda e para consumo. Depende apenas da perspectiva com que se olha.

Virou celebridade. Ganhou páginas de revistas masculinas e contratos do que popularmente se chama de publicidade. Dois anos se passaram e uma outra Copa, que não a do mundo, mas a da América do Sul, faz com que o inusitado se transforme em algo já esperado. A história se repete. E celebridades, pelo próprio modus operandi, são sinônimo de repetição. Construções midiáticas efêmeras na sociedade do espetáculo.

Referências Conexas

GOLDSMITH, Ronald E.; LAFFERTY, Bárbara A.; NEWELL, Stephen J. The impact of corporate credibility and celebrity credibility on consumer reaction to advertisements and brands. Journal of Advertising, v. 29, n. 3, p. 43-54, 2000.

MARSHALL, P. David. Celebrity and power: fame and contemporary culture. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1997.

NEWMAN, George; DIESENDRUCK, Gil; BLOOM, Paul. Celebrity contagion and the value of objects. Journal of Consumer Research, v. 38, n. 2, p. 215-228, 2011.

SLATER, Don; TONKISS, Fran. Market society. Cambridge: Polity Press, 2001.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A amizade é um fenômeno infantojuvenil

Hoje é o dia do amigo e o dia internacional da amizade. Muito antes de a indústria cultural querer fazer crer que a amizade é algo nobre e definir uma data no calendário para sua comemoração, Platão e Aristóteles já tentavam explicar mecanismos de relacionamentos e de construção de laços entre as pessoas. Isso seria o caminho inicial para o que veio a se chamar de amizade. Antropólogos procuraram explicar como em tempos primitivos havia um processo de agrupamento entre os homens como um meio para a proteção contra riscos e ameaças. Sociólogos, posteriormente, demonstraram formas de aproximação por meio de grupos de referência como igreja, escola e família. De uma forma ou de outra, ao longo da história, a amizade é simbolicamente consumida a cada dia. No Brasil, em particular, todos são amigos, mesmo aqueles que se conhecem a menos de um dia. Ocorre que, como conceituada na modernidade, a amizade é um fenômeno infantojuvenil. Não há amizade entre adultos. Adultos apenas têm interesses em comum.

Referências Conexas

HIRSCHMAN, Elizabeth C. Comprehending symbolic consumption: three theoretical issues. In: HIRSCHMAN, Elizabeth C.; HOLBROOK, Morris B. (Ed.) Symbolic Consumer Behavior. Duluth: Association for Consumer Research, 1981. pp 4-6.

RUBIN, Lillian B. Just friends: the role of friendship in our lives. New York: Harper & Row, 1985.

WATTANASUWAN, Kritsadarat. The self and symbolic consumption. Journal of American Academy of Business, v. 6, n. 1, p. 179-184, 2005.