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domingo, 5 de junho de 2011

Pobre ou humilde?

Baixa renda ou humilde? Família de baixa renda ou família humilde? Pelo que se escuta e se vê na mídia de difusão nos últimos anos, e também por meio da própria linguagem do cotidiano, pobreza passou a ser sinônimo de humildade. Nesse caso, o que significa humildade? Por questões relativas à linguagem chamada de politicamente correta, o sentido original da palavra parece ter se transformado em sinônimo de pobre ou possuidor de baixa renda.

É desconfortável dizer que alguém é pobre. É mais palatável dizer que alguém é humilde. Trata-se, nitidamente, da construção social de um significado. E essa construção cria uma zona de conforto, inclusive para quem recebe a denominação. Várias pessoas, em entrevistas às emissoras de TV, mencionam ser de famílias de origem humilde. Isso é muito comum, por exemplo, entre jogadores de futebol.

A capacidade de incorporação, transformação e construção de significados, é um dos mais importantes fenômenos culturais. Do ponto de vista de consumo, os humildes são os queridos do mercado hoje em dia. As grandes empresas os procuram e para eles oferecem milhares de produtos e serviços. Não pelo que representam em sua humildade, mas sim pelo que representam em termos de poder de compra. Sob esse aspecto, pobres, ou consumidores de baixa renda, não têm nada de humildade. Simples assim!

Referências Conexas

FERREIRA, Lucia M. A.; ORRICO, Evelyn G. D. (Orgs.). Linguagem, identidade e memória social: novas fronteiras, novas articulações. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

PRAHALAD, C. K. A riqueza na base da pirâmide: erradicando a pobreza com o lucro. Porto Alegre: Bookman, 2009.

SEARLE, John R. The construction of social reality. New York: Free Press, 1995.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Capitalismo preconceituoso

A história do capitalismo sempre foi tecida por meio de ações controversas, incluindo desonestidade, ambição e oportunismo. Ações criativas, inovadoras e até mesmo geniais, no sentido da construção do bem-estar, também fazem parte de sua história. Isso não significa que uma ação exclua a outra. Elas podem co-existir. O sistema econômico é absurdamente complexo e não linear, como a própria natureza humana.

No início desse ano foi possível observar, de forma contundente, mais uma manifestação do pacote de possibilidades do capitalismo em terras brasileiras. Ela está presente em relatório de pesquisa divulgado pelo Instituto Data Popular. Na contramão do aumento do consumo entre as chamadas classes de baixa renda, executivos de companhias brasileiras afirmaram haver preconceito nas empresas no que se refere à criação e oferta de marcas específicas de produtos para os chamados mercados C e D.

Dirigentes empresariais assumem, nesse episódio, uma posição de arrogância ímpar. Isso revela anacronismo e despreparo dentro do sistema. Alguns poderiam dizer má fé. Tecnicamente, trata-se de uma compreensão inadequada do funcionamento da economia de mercado.

Aparentemente, a relação entre a Casa Grande e a Senzala nunca irá sair do imaginário brasileiro. Em muitos lugares, mundo afora, dinheiro não tem cor ou classe social na ação da oferta para o consumo. No Brasil tem. Em alguma medida isso revela a dificuldade da nossa sociedade entender e praticar a distribuição de renda.

Referências Conexas

PARENTE, Juracy; BARKI, Edgard. Oportunidades na baixa renda. GV Executivo, v. 4, n. 1, p. 33-37, 2005.

PRAHALAD, C. K. A riqueza na base da pirâmide: erradicando a pobreza com o lucro. Porto Alegre: Bookman, 2009.