segunda-feira, 11 de abril de 2011

A quem interessa o boicote (virtual) à Petrobrás?

Boicote não é algo que faça parte da cultura brasileira. Se puxarmos pela memória, perceberemos o quão é difícil lembrarmos de um caso de boicote, bem sucedido ou não, do qual participamos pessoalmente ou que alguém que nos é conhecido participou. Simples assim: brasileiro não boicota. Fala mal, reclama, mas não boicota. Pelo menos, não de uma forma organizada, coletiva, que cause repercussão e traga algum resultado social e econômico.

Desde o início do ano passado tem circulado mensagens pela internet conclamando as pessoas a fazerem boicote à Petrobrás, interrompendo o consumo de combustíveis da rede de postos BR. O argumento é o de que os preços dos combustíveis irão baixar se os postos Petrobrás tiverem seu movimento de vendas significativamente reduzido. Como a rede BR é a maior do país em termos de distribuição de combustível, precisará baixar os seus preços para recuperar o mercado perdido em função de um boicote. A mensagem informa que na medida em que a Petrobrás diminuir os seus preços, outras companhias, como Shell, Esso, Ipiranga, Texaco, etc., serão forçadas a fazerem o mesmo. Logo, os combustíveis terão os preços reduzidos em todo o país.

Bastante sutil, não? Quem inicialmente escreveu essa mensagem esqueceu pelo menos uma coisa: a falta de hábito do brasileiro em realizar boicotes. Por outro lado, quem recebeu essas mensagens precisa se perguntar a quem interessa promover um boicote (virtual) contra a Petrobrás. O preço do combustível será mesmo reduzido ou apenas aumentará a venda de combustível das companhias concorrentes da Petrobrás?

Referências Conexas

BARDA, Constantia; SARDIANOU, Eleni. Analysing consumers' ‘activism’ in response to rising prices. International Journal of Consumer Studies, v. 34, n. 2, p. 133-139, 2010.

BELL, Carolyn S. Consumer economic power. Journal of Consumer Affairs, v. 2, n. 2, p. 155-166, 1968.

IZBERK-BILGIN, Elif. An interdisciplinary review of resistance to consumption, some marketing interpretations, and future research suggestions. Consumption Markets & Culture, v. 13, n. 3, p. 299-323, 2010.

JUBAS, Kaela. Conceptual con/fusion in democratic societies: understandings and limitations of consumer-citizenship. Journal of Consumer Culture, v. 7, n. 2, p. 231-254, 2007.

8 comentários:

  1. Quando recebi este e-mail achei interessante, pois faz sentido. Mas não havia levantado estas questões. Bom post.

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  2. Também acredito que brasileiro não tem a cultura do boicote. Recebi o email, li, achei interessante e só. Como gostaria que pudessemos nos unir em causas comuns como fazem todos os povos no resto do mundo...

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  3. Luis Fernando,

    Pois é, há sempre a possibilidade de que exista um interesse por trás dessas mensagens que promovem "correntes" ou boicotes.

    Obrigado por vistar o blog!

    Netto,

    Na história da formação sócio-econômica do Brasil, enquanto nação, não há mesmo indicadores de que o comportamento coletivo em torno de uma causa funcione muito bem ou seja uma característica sócio-cultural. No Chile, diferentemente, o boicote é um mecanismo bastante usado, e com sucesso. Lá, no início desse ano, na região sul do Chile, que é uma região turística, houve um episódio em que a população de uma cidade prendeu como reféns turistas que estavam na região em função de uma reivindicação por eles apresentadas ao governo central do país. Qual era a demanda? Exatamente redução dos preços dos combustíveis. Veja só, eles chegaram a sacrificar a reputação da região, que vive do turismo, em função de uma causa que consideraram justa.

    Abraços,

    Francisco Giovanni

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  4. Neste caso, mesmo que as pessoas aderissem ao boicote, ele não iria funcionar, por um motivo simples: das 13 refinarias existentes no Brasil, 11 são da Petrobras. Ou seja, quando você compra gasolina ou diesel em um posto Shell, Esso, etc. na verdade está comprando gasolina da Petrobras. No final das contas o dinheiro vai pro mesmo lugar. O único prejudicado com o boicote é o dono do posto, que tem apenas uma concessão para utilizar a marca BR.

    sds,

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  5. Daniel,

    Obrigado pela visita e pelas informações adicionais.

    Um abraço,

    Francisco Giovanni

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  6. Eloisa Paula de Oliveira17 de abril de 2011 02:45

    Olá professor,
    já recebi muitos emails desta natureza e nunca consegui lembrar ao menos do dia que era pra eu não abastecer ou coisa parecida. Não posso generalizar com a afirmação de que os brasileiros são assim, mas acredito que muitas pessoas não se interessam por ações deste tipo. Minha mãe diria que é "tapar o sol com a peneira", pois todos sabemos que estamos utilizando um recurso que um dia irá acabar. Compramos mais carros agora do que antigamente, temos mais empregos, mais dinheiro que nos permite isso (nem que seja o velho fusquinha ou o fiat 147 ou a 'motinha' pra ir trabalhar), existem muitos mais carros por família. Talvez o que pudesse dar mais resultado seriam ações de conscientização como "dia sem carro", "dia da bicicleta","dia da caminhada" como já existem pelo mundo. Em minha cidade, Campo Mourão, uma vereadora propôs que este dia fosse criado (http://tribunadointerior.com.br/politica/noticias/4166/), ninguém é obrigado ou coagido, apenas convidado a deixar o carro em casa. A questão não envolve apenas o combustível, envolve diversas perguntaa: para quê usar tanto combustível? por que dependemos tanto dele? até que ponto o transporte público não é eficiente? porque temos que ir ao açougue, que fica a quatro quarteirões da casa, de carro e não a pé? a falta de tempo ou segurança realmente justifica o uso do automóvel? O que significa na vida do brasileiro ter e usar um carro, e porque isto significa tanto?
    Ao invés de culpar o outro (neste caso a Petrobrás) pelos efeitos da escassez de algo (neste caso o combustível) o foco deveria ser buscar a causa, verificar as necessidades e desperdícios, e ter muita coragem pra mudar a nossa confortável e segura rotina.

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  7. Olá, Eloisa!

    Grato pela contribuição às discussões.

    Um abraço,

    Francisco Giovanni

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  8. Bom .. no inicio como a alta era pequena, ninguem tava nem ai, mais agora depois de um tempo, percebi que o movimento em postos petrobras cairam muito aqui na cidade, e os preços tambem estão baixando.

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