O diretor de Avatar, James Cameron, é um cineasta canadense que entende como poucos a indústria do cinema. Se havia alguma dúvida sobre o seu lugar na história dessa indústria por ter dirigido Titanic, agora é uma missão árdua imaginar que se trata de um acaso. Em 1998, com Titanic, ele recebeu 14 indicações ao Oscar e ganhou 11, incluindo melhor diretor e melhor filme de 1997. Ele faz filme para estadounidense ver e o resto do mundo também.
Avatar tem apelos de ordem universal e absolutamente contemporâneos. O principal deles, e que perpassa todo o filme, relaciona-se ao meio ambiente. Apresenta-se a noção de interdependência entre os seres vivos, foca-se na relação homem-natureza e, por conseguinte, faz-se uma defesa do conceito de homeostase. Os heróis do filme arriscam contrariar as ordens de uma grande corporação para salvar os habitantes de Pandora, uma espécie de planeta distante que contém um minério raro, capaz de resolver os problemas de energia da Terra.
A causa ambiental é universal, todavia sensibiliza mais os consumidores das classes média e alta do que os de baixa renda. Isso pode ser bem ilustrado por meio da personagem da cientista vivida por Sigourney Weaver em Avatar, ainda que as convicções profissionais da personagem a aproximem da causa ambiental. A propósito, ao usar em uma das cenas de Avatar uma camiseta da Stanford University, onde estudou no início dos anos 1970, Sigourney Weaver remete o espectador aos tempos em que ela militava como estudante em Stanford e era próxima do movimento hippie. Os hippies de antes e os de hoje continuam tentando salvar o planeta.
Independente de ter se tornado um fenômeno nas bilheterias, mesmo a despeito de que o custo do ingresso seja maior pelo fato do filme ser 3D, Avatar é uma rica experiência para aqueles que gostam de ir ao cinema. Parte do seu sucesso, talvez a maior, deve-se à tecnologia cinematográfica nele empregada. Parte, mesmo que pequena, pode ser atribuída ao seu apelo ambiental. Defender o meio ambiente é, no mínimo, ser politicamente correto. Por outro lado, salvar os habitantes de Pandora é uma forma simbólica de salvar Pandora. Ocorre que o único lugar em que organizações ou pessoas conseguem salvar algum planeta é na tela do cinema ou da televisão. Parece não haver saída para essa questão. Para perceber isso, basta observar o resultado da COP 15, a Conferência do Clima de Copenhague, realizada sob os auspícios da ONU em dezembro do ano passado.
Referências Conexas
GUEDES, Ana L. Empresas transnacionais e questões ambientais: a abordagem do realismo crítico. Revista de Sociologia e Política, n. 20, p. 25-42, 2003.
HOLBROOK, Morris B. Popular appeal versus expert judgments of motion pictures. Journal of Consumer Research, v. 26, n. 2, p. 144–155, 1999.
OLIVEIRA, Josiane S. de; VIEIRA, Francisco G. D. Produção simbólica e sustentabilidade: discutindo a lógica da salvação da sociedade pela mudança nos modos de consumo. Caderno de Administração, v. 16, n.2, p. 35-43, 2008.