
A cultura, como expressão
material por meio dos alimentos, transforma-se a cada dia, de uma forma
extremamente rica e imprevisível. Parte como processo de produção conduzido por
instituições do mercado, parte como processo de reprodução e ressignificação por
meio de hábitos de consumo.
Tal transformação é passível de
ser observada em alimentos como o pão de queijo e a tapioca, que ao longo do
tempo foram modificados em termos de sabores, texturas, aromas, formas, espaços
e ocasiões de consumo, tendo recebido novos significados.
A tapioca e o pão de queijo têm
suas origens vinculadas à cultura das populações indígenas e têm como base do
preparo o polvilho que é extraído da mandioca. Durante muitos e muitos anos
foram consumidos de forma bastante simples, circunscrita a regiões específicas
do Brasil onde eram, e ainda são, alimentos populares. Hoje em dia, porém, essa
característica de consumo foi modificada.
O consumo da tapioca foi além das
fronteiras do nordeste, já com os emigrantes que foram para o Rio de Janeiro e
São Paulo. Do mesmo modo, o pão de queijo, de Minas Gerais e Goiás, passou a ser consumido em
praticamente todo o Brasil. No caso do pão de queijo, que também virou item de
exportação para outros países, o processo de industrialização, com a
refrigeração e o congelamento das unidades já prontas para serem assadas,
facilitou a expansão do consumo.
A tapioca não é mais apenas o
polvilho com um pouco de coco ralado e manteiga da terra, servida de forma
enrolada e comida com as mãos. É tapioca de
frango, muzarela, brigadeiro, goiabada e doce de leite, entre outras
possibilidades, e é comida com garfo e faca. O pão de queijo, por sua vez, não
é mais só de queijo. É também de
calabresa, goiabada, chocolate, frango e por aí afora. Continua, no
entanto, a ser comido com as mãos. Do lugar simples da cozinha com fogão a
lenha para a lanchonete, o restaurante e o hotel sofisticado, esses alimentos
mudaram de lugar e foram transformados.
Referências Conexas
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