domingo, 22 de fevereiro de 2026

Tapioca com queijo e goiabada, mas pode chamar de alimento fitness e funcional


Tapioca fitness e funcional com queijo e goiabada
Tapioca 'fitness e funcional' com queijo e goiabada

Imagine a cena: você está em um restaurante natural, percorrendo o bufê com aquele olhar de quem busca saúde, e se depara com uma tapioca de queijo com goiabada. Até aí, nada de novo, apenas uma sobremesa afetiva. O detalhe, porém, estava no rótulo: aquela não era uma tapioca qualquer. Além de fitness, ela era funcional.

Essa experiência me fez parar para pensar. Afinal, se formos rigorosos, todo alimento é funcional em alguma medida, já que fornece nutrientes e substâncias que permitem ao corpo desempenhar suas funções vitais. Mas, ali, o adjetivo "funcional" não era biológico, mas sim mercadológico.

A construção de uma categoria

Fiquei questionando se essa placa no bufê era apenas um viés isolado daquele estabelecimento ou se estaríamos diante de algo maior: um desdobramento da formatação do mercado de alimentos por meio de práticas representacionais.

Sabemos que essa história não começou ontem. Embora o conceito tenha ganhado força no Brasil com os iogurtes probióticos da Danone, a semente foi plantada no Japão, ainda na década de 1980. Ao incorporar substâncias bioativas, como fitosteróis e probióticos, as empresas não criaram apenas novos produtos, mas sim a categoria de alimentos funcionais. O mercado passou, então, a prometer benefícios que vão além da nutrição básica, adentrando o imaginário do consumidor com promessas de saúde otimizada.

O nascimento do "Consumidor F2"

Parece que os restaurantes se integraram de vez ao chamado “universo fitness". É um movimento, portanto, que transborda das prateleiras de suplementos e das academias para o prato do dia a dia.

O que há de mais curioso nessa dinâmica é observar o papel do queijo com goiabada nesse cenário. Tradicionalmente associado ao prazer palatável e também ao medo do ganho de peso, o "Romeu e Julieta" ganha uma nova roupagem. Ao ser batizado como "funcional", o alimento sofre uma espécie de purificação simbólica: a) alivia a consciência, pois o prazer deixa de ser pecado; b) justifica a escolha, pois o consumidor sente que não está agindo fora de propósito; e c) neutraliza o risco, pois a ameaça de "prejudicar o corpo" é substituída pela promessa de "ajudar uma função".

O mercado foi capaz de criar o que agora podemos chamar de alimentos F2 (ou FF): Fitness e Funcional. No fim das contas, a tapioca no bufê não era apenas comida, mas sim um dispositivo de mercado desenhado para que a gente possa comer a goiabada sem o peso da culpa, acreditando que estamos, na verdade, cumprindo uma tarefa supostamente técnica de cuidado e manutenção do corpo.

Referências Conexas

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