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domingo, 3 de janeiro de 2016

Réveillon na praia e consumo


Sagrado para alguns e profano para muitos, o Réveillon na praia é repleto de significados e embalado pelo consumo simbólico e material. As ondas do mar e os fogos de artifício  são os principais elementos da narrativa. As ondas emprestam o sentido de levar e trazer, limpar e renovar, enquanto que os fogos conferem o sentido de iluminar e celebrar. Em um momento ritual, em outro rito. 

Há pouca coisa tão pós-moderna quanto celebrar a chegada do Ano Novo na praia. Especialmente se for considerada a materialidade necessária para compor a expressão dos seus significados. O consumo ocorre no lugar, em nome do devir, entretanto, paradoxalmente, não parece haver lugar para o lugar nos significados do Novo.  


Roupas, acessórios, calçados, bebidas, copos, alimentos, recipientes, toalhas, velas, adornos, objetos e mais objetos. Significados construídos. Restos, lixo. O Estado que cuide, limpe tudo. Afinal, não há lixeiras para todos, tampouco espaços onde se possa descartar as sobras do consumo material. É como se  o Natal fosse a casa e o Réveillon fosse a rua.


Referências Conexas

Almeida, A. C. (2007). A cabeça do brasileiro. Rio de Janeiro: Record.

Campbell, C. (2001). A ética romântica e o espírito do consumismo moderno. Rio de Janeiro: Rocco.

DaMatta, R. A. (2003) (1984). A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco.

Durkheim, E. (2003) (1912). As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes. 

Firat, A. F., & Venkatesh, A. (1995). Liberatory postmodernism and the reenchantment of consumption. Journal of Consumer Research, 22(3), 239-267.

Lipovetsky, G. (2007). A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Banhos de Ano Novo




Em um país tropical toma-se banho em vários lugares e de tudo quanto é jeito: no banheiro, no quintal com a mangueira, na piscina, na cachoeira ou no próprio rio, no açude ou no mar. O que não falta é local e oportunidade para o banho. Os europeus parecem nunca ter compreendido de modo adequado o apetite para o banho existente abaixo da linha do equador. Talvez seja a herança indígena da América do Sul. 

Com base na centralidade que o banho tem no cotidiano do brasileiro, companhias como a Body Store, que procura se posicionar como uma empresa de produtos naturais, aproveitam a ocasião do Ano Novo e associam produtos ao banho. Mas não é qualquer banho! É um tipo de banho que leva embora energias negativas - para místicos e supersticiosos isso é assunto para muita conversa .

Como forma de tangibilizar o ritual em torno do banho e do banho que prepara o indivíduo para um ano que se inicia e que se quer melhor, a Body Store lançou o kit Contagem Regressiva. São sete pequenos vidros com essências diferentes e com finalidades específicas. A receita proposta é usar uma essência para cada um dos sete dias que antecedem o Ano Novo. A simbologia envolve desde a própria noção de limpeza já presente no banho, até a busca de equilíbrio e renovação.

A proposta é de fato curiosa, especialmente porque envolve uma certa disciplina de quem pretende usar o kit, pois terá que usar uma essência diferente por dia. Seguir o rito deve ser tarefa fácil para quem está nos trópicos e em pleno verão. O difícil deve ser lidar com a expectativa que os banhos devem criar. Em todo caso, se não operarem milagres para o Ano Novo terão servido para a higiene pessoal.

Obs.: foto da vitrine de uma loja da Body Store em shopping center.

Referências Conexas

Cascudo, L. C. (2001). Superstição no Brasil. São Paulo: Global Editora.

Dolgin, A. (2009). The economics of symbolic exchange. Heildelberg: Springer.

Hirschman, E. C. (1981). Comprehending symbolic consumption: three theoretical issues. In: Hirschman, E. C., & Holbrook, M. B. (Ed.) Symbolic Consumer Behavior (pp. 4-6). Duluth: Association for Consumer Research.

Wattanasuwam, K. (2005). The self and symbolic consumption. Journal of American Academy of Business6(1), 179-184.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O consumo da diversidade em Aberdeen



Aberdeen é uma cidade que está situada no nordeste da Escócia, região litorânea do Mar do Norte, e foi constituída ainda no século VIII. A cidade se orgulha de ser um lugar onde reina a diversidade. Em 2008, diversos órgãos a ela relacionados, e com o intuito de promovê-la, lançaram um cartaz (imagem que se vê acima, nesse post) explorando exatamente essa noção.

A diversidade, contemplada e explorada no cartaz, é destacada pelo fato de Aberdeen possuir, à época, 212.125 pessoas que falavam 60 línguas e professavam 14 fés diferentes. O slogan cunhado para tamanha diversidade foi o seguinte: "Todos diferentes; Todos iguais; Todos juntos; Nós somos Aberdeen"

Do ponto de vista de estudos de cultura e consumo, Aberdeen deve ser um verdadeiro laboratório a céu aberto. No presente momento, no entanto, considerando o plebiscito que ocorrerá no próximo dia 18, em que os escoceses decidirão se querem permanecer como parte integrante do Reino Unido ou se a Escócia será um estado completamente independente e autônomo, é bem possível que Aberdeen esteja em meio a um grande dilema: reafirmar a sua diversidade por meio de uma identidade continuamente relacionada ao Reino Unido ou reafirmar sua diversidade por meio de uma nova identidade meramente escocesa.

domingo, 10 de agosto de 2014

O Conselheiro do Crime




– Bom dia! Quero dar um presente que ela use à vontade. Não quero dar um diamante tão grande que tema usar – cumprimenta e informa, a um só tempo, o Conselheiro.

– Ela deve ser mais corajosa do que imagina – pondera o Traficante de Diamantes.

– É um pillow– Indaga o Conselheiro.

– Não. É um asscher. Olhe os cantos. Avaliemos direito. O pillow é arredondado nos lados. É uma versão moderna do corte dos mineiros. Vejamos a cor. Bote a mesa para baixo – orienta o Traficante de Diamantes, referindo-se a colocar a parte plana do diamante para baixo e olhá-lo de forma invertida como se fosse uma pirâmide.

– Quer ver através do pavilhão? – Solicita confirmação o Conselheiro, demonstrando algum conhecimento de diamantes ao usar um nome para o que seria a parte oposta do diamante e que não se costuma ver quando estão encrustados no metal das jóias.

– Sim. Vê-se melhor as facetas – confirma o Traficante de Diamantes.

– Parece ser amarelo – observa sem muita segurança o Conselheiro.

– É nitrogênio que dá essa coloração. A gradação começa no D. Uma pedra D não tem cor – ensina o Traficante de Diamantes.

– Qual é essa? – pergunta o Conselheiro.

– H – responde o Traficante de Diamantes.

– Ainda é uma boa cor? – Questiona o Conselheiro.

– É uma ótima cor. Diamantes são analisados pelo que lhes falta para a perfeição. Um diamante perfeito seria composto só de luz. Está vendo a pequena imperfeição nessa pedra? – Comenta curiosamente o Traficante de Diamantes, ao mesmo tempo que pergunta. 

– Não – responde surpreso o Conselheiro.

– É pequena. É o que chamamos de pena. Lembre-se: não procura méritos. É um ramo cético. Buscamos só imperfeições – afirma de modo surpreendente o Traficante de Diamantes.

– É. Acho que vi. Qual é a gradação? – Reage de modo inseguro o Conselheiro.

– É um VS1. Alguns avaliariam mais alto – observa o Traficante de Diamantes.

– Pode ter avaliado para cima. Você gosta dessa pedra? – Provoca o Conselheiro.

– Gosto da pedra – responde sem hesitar o Traficante de Diamantes.

– Quantos quilates? – Pergunta o Conselheiro.

– 3,9 – responde o Traficantes de Diamantes. 

– É caro – reclama o Conselheiro.

– As pedras têm conceitos próprios sobre si mesmas. Vou lhe mostrar.

O traficante abre uma espécie de pequeno envelope feito com uma única folha de papel branco, que contem uma pedra de diamante.

– Essa é uma pedra de advertência  informa curiosamente o Traficante de Diamantes. 

O Conselheiro a observa à distância, mas não por muito tempo. Logo usa um instrumento para o exame de diamantes que lembra as garras de um pássaro ao pegar sua presa e lentamente aproxima a pedra dos seus olhos para enxergá-la melhor.

– Mas eu diria mesmo que todo diamante é uma advertência insiste o Traficante de Diamantes.

– Um diamante é uma advertência repete surpreso o Conselheiro, como que para convencer a si mesmo e também afirmar o que o Traficante de Diamantes acabara de dizer por duas vezes.

– Claro! Por que não? Não é um relés desejo, por mais inatingível que seja, aspirar ao destino infinito da pedra. Não é este o significado do adorno de um diamante? Realçar a beleza da amada é admitir a fragilidade dela e a nobreza dessa fragilidade. Dizemos à escuridão que não seremos diminuídos pela brevidade de nossas vidas. Não vamos, por isso, ser considerados menores. Você verá reflete e encerra a conversa o Traficante de Diamantes.

O diálogo acima faz parte de uma das cenas do filme O Conselheiro do Crime (The Counselor), produção internacional envolvendo Estados Unidos, Reino Unido e Espanha, ano de 2013, censura 16 anos, 1h51min de projeção, que tem roteiro de Cormac McCarthy e direção de Ridley Scott,  com a participação dos atores Michael Fassbender (O Conselheiro), Penélope Cruz (Laura), Javier Bardem (Reiner), Cameron Diaz (Malkina), Brad Pitt (Westray), Rosie Perez (Ruth), Toby Kebbell (Tony) e Natalie Dormer (A Loira), entre outros. 


Fora a sempre excelente direção de Ridley Scott, O Conselheiro do Crime envolve a realidade de cartéis de drogas na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Paradoxalmente, em que pese  a sua natureza violenta, explícita e implícita, o filme possui elementos de glamour do (sub)mundo de homens poderosos e quase sem limites. No filme, o risco é calculado e antecipado. Os elementos da cultura de consumo de um mundo glamouroso de muito dinheiro e poder estão todos lá, inclusive as esperadas extravagâncias: carros luxuosos, motos velozes, roupas e mais roupas, casas nababescas, bebidas, hobbies exóticos e serviçais. 


A cena do filme, descrita acima, contudo, contextualizada em Amsterdã, Holanda, e que introduz esse post,  é suficiente para valer a pena assistir o filme. Especialmente pelo caráter do consumo simbólico nela contida, e que transcende em muito a questão meramente material do diamante enquanto uma pedra. 

Esse post compõe uma série chamada "Filme". Trata-se de sugestões de filmes. 

domingo, 22 de junho de 2014

O olhar da FIFA para as cidades-sede da Copa

Os cartazes das cidades-sede da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014 revelam o olhar da FIFA para essas cidades. Revelam, também, que símbolos essas cidades oferecem para consumo. Cada cartaz (pôster) contém imagens que se tornaram ícones das cidades ou da região em que estão localizadas geograficamente. Alguns símbolos com significados mais facilmente decifráveis, outros nem tanto. Logo abaixo estão os cartazes das 12 cidades-sede, em ordem alfabética.

 

 

 

 

 

 

Referências Conexas

Barthes, R. (2006). Elementos de semiologia. São Paulo: Cultrix.

Barthes, R. (2010). Mitologias. Rio de Janeiro: DIFEL.

Silva, C. E. P. da.; Leão, A. L. M. de S. (2014, maio). Cultura, magia e trocas: uma análise semiológica barthesiana das campanhas publicitárias do carnaval de Pernambuco veiculadas pelo Governo do Estado.  Anais do Encontro de Marketing da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Administração, Gramado, RS, Brasil, 6.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Consumo de superstições para o Ano Novo

Acreditar que o Ano Novo será melhor do que o ano que termina é sempre algo bom. Julgar que se pode interferir e fazer alguma coisa para que isso aconteça, parece ser melhor ainda. A cultura brasileira é repleta de elementos que caracterizam e performam essas crenças. Alguns são frutos da imaginação popular, outros do sincretismo religioso experimentado no Brasil, e outros, ainda, da relação com outros povos e culturas, talvez por meio da chamada globalização.
 
Empresas que operam no mercado brasileiro aproveitam e incorporam aos seus produtos, com relativo sucesso, elementos que podem ser consumidos como superstições para o Ano Novo. Em 2012 a São Paulo Alpargatas, empresa que produz as Sandálias Havaianas, fez isso de forma bem sucedida quando lançou uma série especial de sandálias para o Ano Novo. A série recebeu o título de "Havaianas 7 Ondas".
 
O propósito da empresa consistia em que ao adquirir a sandália, o consumidor poderia celebrar o ritual de pular 7 ondas e ter 7 desejos à meia-noite do dia 31 de dezembro. Junto com a sandália a empresa disponibilizou 7 pequenos pins, vendidos separadamente, que poderiam ser fixados nas tiras da sandália, cada um com uma representação simbólica diferente: moeda, pimenta, pomba, trevo, sol, coração e a própria Havaianas que, nesse caso, e segundo o fabricante, representaria a brasilidade, o bom humor e a ginga.
 
A Lacoste também tem explorado o consumo de superstições para o Ano Novo. Há três anos lança uma edição limitada de sua famosa camisa pólo. Trata-se da "Wish Edition - Sortes Brasileiras". São quatro camisas brancas, porém cada uma com um detalhe em cor diferente e significado também diferente: vermelho (romã), azul (ondas), verde (louro) e amarelo (trigo).
 
O consumo simbólico ocorre todos os dias, durante todo o ano. No entanto, parece ser mais intenso no mês de dezembro e no final do ano. O curioso é observar que, em boa medida, pressupõe a existência de um dispositivo material para a sua realização.
 
Referências Conexas
 
Cascudo, L. C. (2001). Superstição no Brasil. São Paulo: Global Editora.
 
Dolgin, A. (2009). The economics of symbolic exchange. Heildelberg: Springer.
 
Hirschman, E. C. (1981). Comprehending symbolic consumption: three theoretical issues. In: Hirschman, E. C., & Holbrook, M. B. (Ed.) Symbolic Consumer Behavior (pp. 4-6). Duluth: Association for Consumer Research.
 
Wattanasuwam, K. (2005). The self and symbolic consumption. Journal of American Academy of Business, 6(1), 179-184.

domingo, 6 de outubro de 2013

O consumo dos protestos

Qual a minha causa? Qual a sua causa? Entre a minha causa e a sua causa, há algo em comum? Qual, portanto, é a nossa causa? Quem fala? Quem se manifesta? Quem protesta? Eu? Você? Nós? É possível protestar horizontalmente, sem representação? E a negociação? Quem faz? Quem fala em nome de quem? Quem se apropria do protesto? Onde estão as empresas? Onde estão as corporações nacionais, multinacionais, transnacionais? Onde estão as ONGs? Qual o papel dos sindicatos, associações setoriais e entidades de classe? Protesto é matéria-prima? Protesto é um meio? Protesto é produto final? Para quem? Com que finalidade? Qual o papel da imprensa? Qual o papel das instituições de ensino e pesquisa? Qual o papel das chamadas think tanks? Qual o papel dos partidos políticos? Corrupção é algo unilateral? Se o Estado é corrupto, empresas são corruptoras? Se o político é descomprometido, o eleitor que o elegeu é negligente? O Estado é sempre culpado? Quem são seus fornecedores? Quem presta serviços ao Estado? Quem molda o Estado? Empresas, ONGs, cidadãos? Somos todos santos? Oremos!
 
Referências Conexas
 
Saad-Filho, A. (2013). Mass protests under ‘left neoliberalism’: Brazil, june-july, 2013. Critical Sociology, 39(5), 657-669.
 
Silva, A. O. (2006). Os intelectuais diante do mundo; engajamento e responsabilidade. Revista da Faculdade de Educação, 4(5/6), 191-205.
 
Vianna, A. M. (2013). As multidões de junho de 2013 no Brasil: o desafio de explicar e compreender. Revista Espaço Acadêmico, 13(146), 36-48.
 
Vieira, F. G. D. (2013). Cultura do silêncio e razão cínica das corporações na primavera brasileira. Revista Espaço Acadêmico, 13(147), 73-81.
 
Vieira, F. G. D., Crubellate, J. M., Silva, I. G., & Silva, W. R. (2002). Silêncio e omissão: aspectos da cultura brasileira nas organizações. Revista de Administração de Empresas – Eletrônica, 1(1), 1-14.
 
Wensley, R. (2010). Market ideology, globalization and neoliberalism. In: MacLaran, P., Saren, M., Stern, B., & Tadajewsky, M. (Eds.), The Sage Handbook of Marketing Theory (pp.235-243). London: Sage.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Consumindo índices e previsões


Novo. Ano novo. Vida nova. Pouca gente gosta de imaginar que o tempo passa e tudo está como antes. A ideia de evolução permeia o cotidiano. Espera-se que as coisas mudem. A percepção da mudança está, indubitavelmente, atrelada ao olhar retrospectivo. Sob esse aspecto é comum o consumo de índices nessa época do ano. Índices relativos ao que passou. Índices que indicam performances. Índices para comparação. Índices para alimentar previsões acerca do que virá. Previsões de quase tudo. Desde previsões sobre os signos do zodíaco e felicidade pessoal a previsões sobre economia, política, e o futuro da humanidade. Trata-se o mundo – e a vida – como um quebra-cabeça ora simbólico, ora material: juntando pedaços para tentar antever o futuro.

Esse post compõe uma série chamada "Dropes". Trata-se de rápidas observações baseadas em fragmentos do dia-a-dia.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Casamento de Romeu e Julieta

A temporada de futebol em 2012 começou dias atrás. Muito espaço na mídia para pouco resultado em campeonatos estaduais. Os próximos meses, contudo, reservam outros torneios como a Copa do Brasil e a Copa Libertadores da América. Essa última, desejada por 11 entre cada 10 clubes brasileiros.

O futebol, como se sabe, é um esporte que envolve e desperta a paixão de milhões e milhões de brasileiros. Com bastante frequência tem produzido comportamentos difíceis de serem explicados com a mínima racionalidade. Tendo em vista as proporções que alcançou, seria mais adequado dizer que se transformou em um grande negócio para diferentes indústrias: entretenimento, imprensa, material esportivo, eletrodomésticos, eletrônicos, saúde, etc. E é exatamente isso que estamos vendo em curso nesse início de ano.

O Casamento de Romeu e Julieta (BRA, 2005, 93 minutos), comédia dirigida por Bruno Barreto, baseada em um conto de Mario Prata, ilustra bem esse universo. Como o título sugere, envolve um amor quase impossível entre um homem e uma mulher. No caso, um corintiano, interpretado pelo ator Marco Ricca, e uma palmeirense, interpretada pela atriz Luana Piovani.

Trata-se de um filme que apresenta diferentes aspectos do consumo material e simbólico em torno do futebol, que muitas vezes não percebemos. É curioso observar como o universo do futebol pode ser demarcado pelo consumo de alimentos, bebidas, lugares, roupas, relações familiares, experiências e viagens, entre outras possibilidades. O filme proporciona boa diversão e, também, uma ótima oportunidade para observamos o consumo do futebol na sociedade brasileira.

Esse post compõe uma série chamada “Filme”. Trata-se de sugestões de filmes.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Solidariedade desviada

Muitas pessoas doam recursos materiais e financeiros para ajudar populações que são vítimas de desastres naturais. Nos últimos anos isso tem acontecido cada vez mais no Brasil devido às chuvas, sobretudo durante o verão. Quem doa esses recursos, o faz com o desejo de que possam ser úteis para alguém. Espera-se que possam ajudar a aliviar a dor e o sofrimento de algumas pessoas. Esse comportamento, além de ser nobre, do ponto de vista moral, é também um comportamento de consumo. Consumo da solidariedade. Consumo do sentimento de colaboração, do bem estar, da consciência tranquila, entre outras possibilidades.

Simbólico em sua essência, poucas vezes esse consumo foi tão desmotivado, e até mesmo ameaçado em sua extensão, como nos últimos anos. Os recursos doados não têm chegado até quem precisa. Chegam às cidades, mas não são disponibilizados para as pessoas, como é o caso de Nova Friburgo, cidade do Estado do Rio de Janeiro. Depois de ter sofrido com chuvas devastadoras no verão de 2011 e voltar a enfrentar situação semelhante no verão de 2012, a cidade não teve a implementação de recursos de origem privada e pública a ela destinados cerca de um um ano atrás.

A recém aclamada sexta maior economia do mundo tem consideráveis dificuldades não só para proteger seus cidadãos de catástrofes climáticas, como também para restaurar condições básicas de sobrevivência após tais eventos. O desvio de recursos está praticamente institucionalizado no Brasil.

Referências Conexas

BARNETT, Clive; CLOKE, Paul; CLARKE, Nick; MALPASS, Alice. Consuming ethics: articulating the subjects and spaces of ethical consumption. Antipode, v. 37, n. 1, p. 23-45, 2005.

MANCE, Euclides A. Redes de colaboração solidária. Petrópolis: Vozes, 2002.

PATERSON, Mark. Consumption and everyday life. Abingdon: Routledge, 2005.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O consumo da virtude

É impressionante! Algo impensado está acontecendo na internet. Todos são santos, probos, qualificados, honestos, justos, e realizam ótimas escolhas. É o que se vê nas redes sociais eletrônicas. Elas parecem ser portas da redenção do homem moderno. Portas que se abrem para o consumo da virtude. Virtude virtual.

Referências Conexas

HIRSCHMAN, Elizabeth C. Comprehending symbolic consumption: three theoretical issues. In: HIRSCHMAN, Elizabeth C.; HOLBROOK, Morris B. (Ed.) Symbolic Consumer Behavior. Duluth: Association for Consumer Research, 1981. pp 4-6.

LASH, Scott; LURY, Celia. Global culture industry: the mediation of things. Cambridge: Polity Press, 2007.

sábado, 24 de setembro de 2011

David e Victoria, mas poderia ser Luciano e Angélica

Acaba de ser publicado na Family Business Review o artigo “When David Met Victoria: forging a strong family brand” (FBR, v.24, n.3, p. 217-232, 2011). Escrito por Marie-Agnès Parmentier, o artigo aborda a construção de marcas familiares. Sob um olhar desavisado o artigo pareceria não ter relação com o universo do consumo. Porém, a autora estuda o caso de David e Victoria Beckham, que constituem uma família que envolve diferentes aspectos de consumo simbólico na indústria global de entretenimento e moda. De algum modo, empresas do mundo inteiro buscam casais que possam servir de ícone e emprestar suas imagens para suas marcas, assim como consumidores buscam, mundo afora, mimetizar tais pessoas. No Brasil, isso não é diferente. Um paralelo com os Beckham pode ser feito a partir de Luciano Huck e Angélica, personalidades da televisão brasileira, que não só emprestam seus nomes para consumo, como são, eles próprios, objetos de consumo simbólico.

Esse post compõe uma série chamada “Olhar Acadêmico”. Trata-se de breves observações realizadas sobre trabalhos acadêmicos na forma de artigos, dissertações, teses ou livros relacionados direta ou indiretamente ao campo de cultura e consumo.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A amizade é um fenômeno infantojuvenil

Hoje é o dia do amigo e o dia internacional da amizade. Muito antes de a indústria cultural querer fazer crer que a amizade é algo nobre e definir uma data no calendário para sua comemoração, Platão e Aristóteles já tentavam explicar mecanismos de relacionamentos e de construção de laços entre as pessoas. Isso seria o caminho inicial para o que veio a se chamar de amizade. Antropólogos procuraram explicar como em tempos primitivos havia um processo de agrupamento entre os homens como um meio para a proteção contra riscos e ameaças. Sociólogos, posteriormente, demonstraram formas de aproximação por meio de grupos de referência como igreja, escola e família. De uma forma ou de outra, ao longo da história, a amizade é simbolicamente consumida a cada dia. No Brasil, em particular, todos são amigos, mesmo aqueles que se conhecem a menos de um dia. Ocorre que, como conceituada na modernidade, a amizade é um fenômeno infantojuvenil. Não há amizade entre adultos. Adultos apenas têm interesses em comum.

Referências Conexas

HIRSCHMAN, Elizabeth C. Comprehending symbolic consumption: three theoretical issues. In: HIRSCHMAN, Elizabeth C.; HOLBROOK, Morris B. (Ed.) Symbolic Consumer Behavior. Duluth: Association for Consumer Research, 1981. pp 4-6.

RUBIN, Lillian B. Just friends: the role of friendship in our lives. New York: Harper & Row, 1985.

WATTANASUWAN, Kritsadarat. The self and symbolic consumption. Journal of American Academy of Business, v. 6, n. 1, p. 179-184, 2005.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Heaven card: sem inflação e por uma causa nobre

O governo federal tem tomado medidas para desestimular o consumo. Parece que o fantasma da inflação ameaça voltar a assombrar a economia brasileira. Segundo o governo, a popularização e o uso desenfreado do cartão de crédito contribuem para a volta desse fantasma. Por conta disso, é preciso tomar medidas que desestimulem o uso do cartão de crédito. A elevação do IOF e o aumento no percentual de pagamento mínimo da fatura foram medidas para reduzir os gastos com o cartão de crédito. A princípio, parece que essas medidas iniciais têm funcionado. O governo não conta, no entanto, com a enorme criatividade econômica do brasileiro. Se o uso dos cartões de crédito pode gerar inflação, por outro lado pode ajudar ações e obras sociais cristãs. É o caso do que foi idealizado pelo Pastor Soares da Igreja Internacional da Graça de Deus. Ele criou o Heaven Card, um cartão de crédito que faz tudo o que os outros fazem, inclusive fazer doações e pagar o dízimo por meio de débito automático.

Referências Conexas

FABER, Ronald J.; O'GUINN, Thomas C. Compulsive consumption and credit abuse. Journal of Consumer Policy, v. 11, n. 1, p. 97-109, 1988.

WYMER JR., Walter W.; SAMU, Sridhar. Volunteer service as symbolic consumption: gender and occupational differences in volunteering. Journal of Marketing Management, v. 18, p. 971-989, 2002.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Bahrein, Estados Unidos e o consumo da democracia

O ato do consumo se concretiza por meio de objetos físicos e por meio de símbolos. Os significados também são consumidos. Eles estão no centro e no entorno dos objetos. A rigor, transcendem os objetos. Adentram as relações. Consumir é significar. Significar para si próprio e para os outros. Significar para negar e para afirmar. Significar para mediar. Significar para significar.

O ocidente é confuso. Caminha em círculos. Tenta definir uma direção sem direção. A democracia não serve apenas para os inimigos. Deveria servir também para os aliados. Os Estados Unidos emitem sinais dúbios. O país das estatísticas e da meritocracia, onde se cultua e consome valores forjados no que se conheceu como terra dos bravos e destemidos, não consegue ser coerente. Não usa a mesma régua. O que há de diferente entre o Egito e o Bahrein? O que há de diferente entre o Bahrein e o Irã? Os interesses geopolíticos estadounidenses. Eles estão acima do sangue derramado nas praças do mundo árabe.

Referências Conexas

COOK, Daniel T. (Ed.) Lived experiences of public consumption: encounters with values in marketplaces on five continents. New York: Palgrave Macmillan, 2008.

LOHMANN, Larry. Consumption and democracy. The Corner House. 1998. Acesso em: 18 fev. 2011.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Clinton e Bush para o Haiti

Atendendo a pedidos de Obama, Clinton e Bush, ex-presidentes estadounidenses, criaram um fundo para ajudar o Haiti a se reerguer após o terremoto que devastou a capital do país no início do ano passado. Trata-se de uma organização sem fins lucrativos que recebe doações que são enviadas ao Haiti. Enquanto presidentes, Clinton e Bush, pertencentes a partidos divergentes e também com diferentes orientações de política internacional, ignoraram solenemente o Haiti. No entanto, o terremoto ocorrido no Haiti fez com o que ambos se juntassem em nome desse país. Bom para os haitianos que precisam de ajuda, porém é lamentável a constatação de que as tragédias tem o efeito colateral de criar commodities para consumo geral. O Haiti tornou-se uma commodity desde o ano passado e serve para o consumo simbólico de diferentes maneiras e por diferentes pessoas, inclusive, e sobretudo, por instituições.

Referências Conexas

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectivas, 2009.

HIRSCHMAN, Elizabeth C. Comprehending symbolic consumption: three theoretical issues. In: HIRSCHMAN, Elizabeth C.; HOLBROOK, Morris B. (Ed.) Symbolic Consumer Behavior. Duluth: Association for Consumer Research, 1981. pp 4-6.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Um banco, muitas memórias


O tempo para caminhar, parar, sentar e apreciar o movimento das ruas, paisagens ou jardins, está cada vez mais escasso na sociedade contemporânea. Quando isso acontece, os bancos de rua representam bom suporte e servem também para nos acomodar para a leitura de um livro ou para uma conversa. Décadas atrás, o banco de rua tinha uma presença importante na paisagem urbana. Hoje, está praticamente relegado ao esquecimento ou é algo circunscrito ao uso de pessoas da chamada terceira idade – o ócio, além de não ser bem-visto, é indesejado em nossa sociedade. Na Inglaterra, os bancos possuem um significado de destaque entre as diversas maneiras de se homenagear entes queridos. É habitual a aquisição e doação de bancos de rua e jardim, onde são afixadas mensagens escritas para pessoas com as quais se compartilhou um lugar e momentos ao longo da vida. A título de ilustração, além da foto acima, há uma cena no filme Um Lugar Chamado Notting Hill (direção de Roger Michell), que indica bem o uso de bancos com o sentido aqui apontado. No filme, os personagens William Thacker e Anna Scott, encenados por Hugh Grant e Julia Roberts, respectivamente, sentam-se em um banco de jardim onde está escrito o seguinte texto: “For June who loved this garden – from Joseph who always sat beside her. June Wetherby, 1917-1992” (À June, que amava este jardim – de Joseph, que sempre a acompanhava).

Obs.: a foto acima consiste em um “close” de dizeres em um banco de rua em Wansfell Road, na cidade de Ambleside, Inglaterra.

Esse post compõe uma série chamada “Nota de Viagem”. Trata-se de um conjunto de pequenas observações realizadas durante viagens.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O espetáculo da solidariedade

A mídia precisa de informações. Consome. A mídia produz informações. Vende. O consumo, no caso, suprimento, é também o produto. Simultaneamente. Simples assim. Em algumas circunstâncias, quanto mais dramático o suprimento, mais dramático ainda é o produto, posto que o suprimento pode ser trabalhado, intensificado, revisado, iluminado, enfim, editado.

Diuturnamente, em maior ou menor proporção, acontecem acidentes, mazelas, desastres, catástrofes. O terremoto ocorrido um mês atrás no norte do Chile, e que deixou 33 mineiros presos sem condições de alcançar a superfície da mina onde trabalhavam, é mais um suprimento ou produto da mídia, a depender do ângulo que para ele se olhe. A novidade é que tais acidentes, infelizmente também passaram a ser vorazmente consumidos pelas chamadas redes sociais de solidariedade.

Embaladas pela mídia, redes de solidariedade de objetivos duvidosos tem sido criadas em torno desse triste episódio chileno. É sempre assim. Muda apenas o lugar, o endereço. Na última sexta-feira circulou uma mensagem por e-mail solicitando a doação de US$ 3.00 para ajudar as famílias dos mineiros da Mina San José no Chile. Aquele ou aquela que fizesse a doação, por meio de transferência ao Banco Santander no Chile, receberia em troca um e-book com o título “Sou Mineiro: o livro da cooperação”. O remetente do e-mail foi a Unicist Goodwill Network do The Unicist Research Institute. É curioso como conseguem o e-mail dos internautas e não dos agentes governamentais e empresariais responsáveis e diretamente envolvidos com o episódio!

Redes sociais de solidariedade tem usado esse expediente; ou seja, doe um determinado valor monetário e receba algo em troca, como um livro ou um objeto qualquer. Até a solidariedade precisa de estímulos em tempos pós-modernos. O acidente com os mineiros do Chile tornou-se um espetáculo a céu aberto.

Referências Conexas

ADORNO, Theodor W. Indústria cultural e sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

GOMEZ, Sandra L. La subcontratación en la minería en Chile: elementos teóricos para el análisis. Polis, v. 8, n. 24, p. 111-131, 2009.

KILDUFF, Martin; TSAI, Wenpin. Social networks and organizations. London: Sage, 2003.

VERONESE, Marilia V. Sujeito, consumo e solidariedade: as ausências e presenças. E-Compós, v. 11, n.2, p. 1-18, 2008.