Do sofá à arquibancada e à avenida, fevereiro parece reunir uma situação ímpar de exposição midiática e atenção do público por meio da tríade Big Brother Brasil (BBB), futebol e carnaval. É como se houvesse uma convergência perfeita para a definição de ídolos e vilões, processo típico da construção, do culto e do consumo da celebridade moderna.
A espetacularização privada e a céu aberto, transmitida pela TV e pelo streaming, envolve a performance de intimidades e relações, o herói de chuteiras portador de esperanças, bem como a estética de corpos que buscam a realeza sob os holofotes da passarela. É um verdadeiro “triângulo das bermudas midiático”: um espaço de atração irresistível onde o consumo em cada tela ou vitrine implica em identidade, pertencimento ou projeção.
Mais que isso, há uma dinâmica em que se cria um mercado com produtos e serviços, em que praticamente tudo vira um evento midiático pronto para espetacularização, consumo e culto às celebridades: o participante, o apresentador, o diretor e o digital influencer do BBB; o atleta, o técnico e o presidente do clube de futebol; o narrador, o comentarista, o repórter de campo da emissora de TV ou da plataforma de streaming que transmite a partida de futebol; a musa, a rainha da bateria, a porta bandeira, o passista, o puxador de samba e o presidente da escola de samba.
O volume de recursos envolvidos na estruturação e organização de cada vértice desse triângulo é considerável e inclui inúmeros agentes de mercado. Segundo o BPMoney, a Rede Globo deve faturar R$ 1,5 bilhão com o BBB neste ano. No futebol, a força econômica da Série A do Campeonato Brasileiro já movimenta receitas superiores a R$ 10 bilhões, conforme a Galapagos Capital. Já o carnaval deve atingir uma movimentação recorde de R$ 14,48 bilhões agora em 2026, segundo estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) publicadas no ICL Notícias.
A confluência neste mês entre BBB, a efervescência dos campeonatos estaduais e o andamento das primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro da Série A, somada à realização do carnaval, revela como a dinâmica de consumo e o culto às celebridades moldam, simultaneamente, a vida social e a economia nacional. Além disso, sugere o zeitgeist brasileiro para o mês de fevereiro.
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