domingo, 18 de janeiro de 2026

A Empregada e o livro como produto para consumo

 


Eu já ouvira falar sobre o livro A Empregada, escrito por Freida McFadden. Todavia, fiquei bastante surpreso quando, ao visitar uma livraria, deparei-me com uma gôndola inteira de livros dedicada à exposição de diversos títulos da mesma autora. Isso me levou a refletir que mesmo a despeito de algum estranhamento ou resistência em admitir, o livro também é um produto para consumo.

E se livro é um produto para consumo, ele pode ser planejado, escrito, publicado e promovido no mercado como qualquer outro produto. Sim, eu sei que isso pode parecer estranho em um primeiro momento, sobretudo dada a natureza mágica que muitos de nós atribuímos aos livros, mas essa é a realidade mercadológica.

Diferentes produtos possuem diferentes protocolos para o seu desenvolvimento e lançamento e, apesar de muitos esforços e cuidados, nada garante que sejam bem-sucedidos no mercado. Mas e o livro? O que faz um livro que não é técnico ou científico, porém sim um livro da literatura de entretenimento, tornar-se um produto extremamente bem-sucedido no mercado, um típico best-seller?

Já diziam que não tem resposta fácil para pergunta complexa, não é mesmo? Se houvesse uma receita pronta para um livro da literatura de entretenimento se tornar um absoluto sucesso de vendas, suponho que inúmeros autores iriam experimentar essa receita. De qualquer modo, alguns dos aspectos necessários para alavancar vendas são conhecidos pelas editoras e, naturalmente, pelos próprios autores. Tal conhecimento, entretanto, não é uma garantia que acontecerá aquilo que se deseja.

Livros de suspense e que são thriller psicológicos, como no caso do livro A Empregada, costumam possuir narrativas frenéticas, e uma espécie de plot twist a cada meia dúzia de páginas. É como se houvesse uma constante tentativa de não deixar nada se acomodar, de trazer sempre algo diferente e que tende a mudar tudo, ou quase tudo, até então lido. E isso parece funcionar bem na literatura de entretenimento.

A leitura de entretenimento é a leitura que cola, que gruda, que não se quer deixar de lado. Parece que o mais importante não é necessariamente o que está sendo dito, mas como se diz aquilo que está sendo dito. É como se tivesse uma surpresa sempre à espreita. E, sinceramente, isso facilita por demais a leitura, no caso, o consumo de um livro.

A propósito de tal estrutura narrativa, a autora de A Empregada, Freida McFadden, é uma verdadeira expert. Segundo o New YorkTimes, ela é a autora de suspense mais vendida nos Estados Unidos. Ela publicou o primeiro livro (The Devil Wears Scrubs) em 2013 e a partir dessa primeira obra lançou mais 30 títulos. Há anos, como 2022 e 2024, por exemplo, em que ela lançou cinco novos títulos. Não! Você não leu errado. Isso mesmo: cinco títulos. Cada um em um intervalo de menos de três meses.

Os dados de vendas disponíveis são difusos, porém de acordo com a Livraria da Vila, o título A Empregada vendeu mais de três milhões de exemplares no mundo todo, e foi o primeiro de uma série composta por mais três títulos: O Segredo da Empregada, A Empregada Está de Olho, e O Casamento da Empregada. Os quatro títulos foram lançados no Brasil pela Editora Arqueiro (veja foto acima, no início deste post).

De tanto sucesso que fez, o livro A Empregada terminou sendo adaptado para o cinema no ano passado. O filme tem o mesmo título do livro e foi dirigido por Paul Feig, com a participação Sydney Sweeney, Amanda Seyfried, Brandons Skelnar, Indiana Elle, e Michele Morrone como atores principais. Como era de se esperar, o lançamento e a exibição do filme fez com que o livro vendesse e fosse consumido ainda mais.

Colocando-se à parte, entretanto, o fato de A Empregada ter seguido uma espécie de protocolo para o sucesso editorial, aparentemente foi o BookTok que promoveu uma rápida expansão no número de seus leitores. Esse destaque é feito por Alessandra Monaco em coluna publicada na Revista Exame, onde aborda o papel exercido por usuários da plataforma TikTok que compartilharam suas experiências de leitura e impulsionaram o consumo do livro. Esse fato revela a existência de mais um agente de mercado influente no contexto de indicações de livros, que vai além da indicação de livros usualmente feita por familiares, professores ou críticos literários.

E aqui vale ressaltar algo que me parece relevante: se existem muitas críticas às redes sociais pelo que produzem em termos de comportamento nas pessoas, algum reconhecimento deveria existir pelo que trazem em termos de possibilidades de leitura. É cada vez mais comum observar diferentes fotos de livros sendo postadas nas redes sociais. Usuários das redes se orgulham em publicar fotos daquilo que estão lendo. Na pior das hipóteses, os agentes do mercado editorial deveriam agradecer. E aí estão incluídas as livrarias. Afinal, a prática da leitura é sempre uma boa coisa, e não importa se é leitura de gibi, previsão do tempo, jornal online ou livro. O importante é ler!

Bom, até hoje estou ruminando a visão que tive da gôndola na livraria e todo esse fenômeno em torno do livro A Empregada. Sei que, de um modo geral, livro é algo sacralizado, muitas vezes um objeto de distinção, algo que possui uma aura de nobreza e que é cercado de valor simbólico e estético. Não obstante, o livro é, a rigor, um produto para consumo.

A esse propósito, estudos sobre cultura de consumo têm se dedicado a diferentes fenômenos, mas não me recordo de nenhum que tenha sido voltado para a literatura ou para o consumo de literatura. Talvez seja uma boa oportunidade de estudo. Um tema relevante a ser investigado, especialmente no que se refere às obras que não só foram sucesso editorial, mas que também foram sucessos cinematográficos.

Referências Conexas

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