
A tragédia causada pelo terremoto no Haiti reacende o debate sobre a disposição de ajudar o outro. Trata-se, no mínimo, de uma perspectiva diferente para o verão, período em que as pessoas estão mais centradas nelas mesmas e em seus prazeres pessoais. Talvez a repercussão dessa tragédia seja maior no Brasil do que em outros países, tanto pelo fato de haver um contingente do exército brasileiro como força de estabilização em missão da ONU naquele país, quanto pela morte da médica Zilda Arns, que lá estava em missão humanitária e que possuía longa e conhecida trajetória de trabalho comunitário.
Nesses casos, por uma questão de interesses geopolíticos, Estados nacionais assumem papéis de solidariedade: destinam fundos e enviam alimentos e remédios, entre outros recursos. Indivíduos, em menor escala, doam recursos ou se oferecem para trabalhos voluntários. Em ambos os casos ocorre o consumo da solidariedade. No primeiro, um consumo pragmático, no segundo um consumo simbólico.
Costumes, hábitos e, especialmente, valores, individuais, comunitários ou mesmo religiosos, orientam o caráter de ações individuais e sociais de solidariedade. Assim, a solidariedade, mesmo que revestida de nobreza, não é consumida de modo igual e com o mesmo sentido. A propósito, entre o segundo semestre de 2008 e o primeiro de 2009, ocorreram chuvas de extrema intensidade nas regiões nordeste e sul do nosso país, deixando milhares e milhares de pessoas desabrigadas. Para cada R$ 1,00 recebido em solidariedade pela região nordeste, a região sul recebeu R$ 8,50, quando havia uma proporção de 4 desabrigados na primeira para cada 1 desabrigado na segunda.
Que o legado de Zilda Arns não seja tão rapidamente esquecido como parece já ter sido esquecido aquele deixado pelo Betinho (Herbert José de Sousa), que criou no início dos anos 1990 o movimento Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida. Pois, afinal, como já dizia Caetano Veloso, em canção do disco comemorativo dos 25 anos do tropicalismo, lançado em 1993, “o Haiti é aqui”.
Referências Conexas
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
NEPSTAD, Sharon E. Convictions of the soul: religion, culture, and agency in the Central America solidarity movement. Oxford: Oxford University Press, 2004.
WEBER, Max. Ensaios sobre a teoria das ciências sociais. São Paulo: Centauro, 2003.
WYMER JR., Walter W.; SAMU, Sridhar. Volunteer service as symbolic consumption: gender and occupational differences in volunteering. Journal of Marketing Management, v. 18, n. 9, p. 971-989, 2002.