Os orientais falam pouco, agem em silêncio e são considerados os reis do pragmatismo, seja na economia ou na política externa. Não necessariamente atuam de forma a receber aplausos, especialmente sob a perspectiva de análise dos ocidentais.
Os ocidentais falam, questionam e reivindicam mais. Tendem sempre a apontar princípios e valores éticos que, supostamente, deveriam ser um norte para quase tudo. Além disso, levantam a bandeira dos direitos humanos e da democracia para quase todos. Nesse sentido, têm somado nos últimos dias suas vozes àquelas do mundo árabe, particularmente do povo egípcio.
Acontece que a crise no chamado mundo árabe é uma crise de bem-estar, econômica e de consumo. A economia egípcia está fortemente ancorada na agricultura e no turismo. Entre os seus principais parceiros econômicos estão os europeus, cuja economia ainda não se recuperou da crise ocorrida no final da última década. O desemprego ronda a casa dos 10% da população economicamente ativa e dados da Organização Internacional do Trabalho indicam que 66% das pessoas com até 30 anos de idade estão desempregadas.
É de se supor que a crise econômica seja o principal vetor para o questionamento do regime político. Os ocidentais preferem apontar o dedo apenas para a ditadura existente no país. Tiveram 30 anos para fazer isso, mas só agora o fazem. É lamentável que a defesa dos direitos humanos e a indignação ocidental com regimes ditatoriais sejam seletivas. A hipocrisia ocidental não permite, por exemplo, apontar o dedo para a China.
Adendo em 05 de fevereiro de 2011:
Imprensa para consumo
A hipocrisia ocidental é facilmente vista na imprensa. A Folha de S. Paulo, considerado o principal jornal do Brasil, publica no dia de hoje (05/02/2011), na primeira página de sua versão eletrônica na web, a seguinte manchete: "Ditador egípcio se reúne com ministros para discutir crise". Pouco tempo atrás, a Folha tratava Hosni Mubarak como presidente da República do Egito. Agora o trata como ditador. Será que, doravante, a Folha, por meio de sua editoria, vai tratar como ditadores em sua primeira página todos os presidentes e reis de nações ao redor do mundo que não foram eleitos pelo voto direto e popular em um regime democrático?
Referências Conexas
GOODY, Jack. The East in the West. European Journal of Sociology, v. 38, n. 2, p. 171-184, 1997.
GUEDES, Ana L. M. Negócios internacionais. São Paulo: Thomsom Learning, 2007.
HOBSBAWN, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
HUNTINGTON, Samuel. O choque de civilizações. Rio de Janeiro: Ponto de Leitura, 2010.
KABASAKAI, Hayat. Arabic cluster: a bridge between East and West. Journal of World Business, v. 37, n. 1, p. 40-54, 2002.