domingo, 15 de julho de 2012

Criatividade na apresentação de produtos orgânicos

 

Durante muitos anos produtos orgânicos ficaram à margem e constituíram um mercado pouco conhecido e valorizado. Por serem produzidos em menor escala, sobretudo por meio de agricultura familiar, e terem uma distribuição restrita, quase sempre tiveram um preço maior do que seus similares não orgânicos e durante um bom tempo foram tidos como sinônimo de produtos caros, tendo pouca demanda. Essa situação mudou consideravelmente hoje em dia. Embora não existam dados precisos, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) estima que o consumo de produtos orgânicos cresça a uma taxa de cerca de 10% ao ano.


É natural que o aumento no consumo dos produtos orgânicos seja resultado de inúmeros fatores. Um deles, no entanto, parece estar vinculado à compreensão por parte dos produtores de que não basta que o produto seja saudável, é preciso, também, que ele seja agradável aos olhos. É isso, por exemplo, que produtores têm procurado fazer ao estimularem o consumo por meio de uma melhor apresentação dos produtos. E ao fazerem isso, não reinventam a roda, mas antes procuram usar elementos de cultura material que são referências para os consumidores, como é o caso da alface embalada em forma de um arranjo de flor nas fotos que fiz para este post, logo acima.
 
Referências Conexas
 
Camilo, A. N. (Ed.). (2011). Guia de embalagens para produtos orgânicos. Barueri: Instituto de Embalagens.
 
Miller, D. (Ed.) (1998). Material cultures: why some things matter. Chicago: University of Chicago Press.
 
Motta, S. L. S., & Rossi, G. B. (2001). A influência do fator ecológico na decisão de compra de bens de conveniência. Revista de Administração Mackenzie, 2(2), p. 109-130.
 
Portilho, F. (2008, junho). Consumidores de alimentos orgânicos: discursos, práticas e auto-atribuição de responsabilidade socioambiental. Anais da Reunião Brasileira de Antropologia, Porto Seguro, BA, Brasil, 26.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Artes e poesia no metrô

Não há livros de poesias em vitrines de livrarias. Se há, é fato raro, quase que único na paisagem das compras. E se a poesia não é consumida em caráter privado, por meio dos dispositivos de entrega convencionais do mercado, ela é consumida – ou oferecida ao consumo – em público.

Foi isso que aconteceu com “O Mistério O Tempo em Poesias”, exposição de caráter multimodal do artista Cacau Brasil, instalada na Estação Ipanema, Metrô Rio. O curioso é que como se fosse para fazer jus a sua proposta multiforme e de “não lugar”, tendo em vista o fato de ser itinerante, a exposição localizou-se entre duas importantes referências geográficas cariocas: a Praia de Ipanema e o Morro do Cantagalo.

Obs.: a foto acima é de um painel na Estação General Osório, Metrô Rio, em Ipanema, Rio de Janeiro, Brasil.

Esse post compõe uma série chamada "Nota de Viagem". Trata-se de pequenas observações realizadas durante viagens.

domingo, 8 de julho de 2012

Preconceitos da propaganda contra idosos

Dentro de poucos anos o Brasil não será mais um país jovem. Pouco se fala nisso, mas segundo dados do IBGE, 11% da população brasileira atual tem 60 ou mais anos de idade e esse percentual tende a aumentar a cada ano que passa. Conforme projeções do IBGE, divulgada após o mais recente Censo, em 2050 serão 65 milhões de idosos.

Esses dados colocam em perspectiva uma situação curiosa: pelo menos por enquanto, os idosos brasileiros não conseguem se ver nas propagandas veiculadas no país. Idosos possuem renda, consomem inúmeros produtos e serviços, mas quando os publicitários de plantão usam suas imagens associadas a práticas de consumo, em geral as usam para colocá-los, no máximo, como coadjuvantes. Em algumas situações, usam imagens que até mesmo causam constrangimento ou os ridicularizam, como nas propagandas da cerveja de marca Nova Schin na televisão ou do UOL em revista – no primeiro caso dois jovens são perseguidos por idosas e no segundo uma idosa demonstra lentidão no uso de equipamento eletrônico.

Em uma sociedade que valoriza a juventude e que tanto cultua a estética do corpo, como será a propaganda nos próximos anos? Idosos continuarão a ser ignorados, como se não existissem, não fizessem parte da população e não consumissem? O país do futuro está envelhecendo, mas, aparentemente, ainda não percebeu.

Referências Conexas

Camargo, L. O. de L., & Bueno, M. L. (2008). Cultura e consumo: estilos de vida na contemporaneidade. São Paulo: Senac.

Debert, G. G. (2003). O velho na propaganda. Cadernos Pagu, 21, p. 133-155.

Moschis, G. P., Mosteller, J., & Fatt, C. K. (2011). Research frontiers on older consumer’s vulnerability. Journal of Consumer Affairs, 45(3), p. 567-491.

Ursic, A. C., Ursic, M. L., & Ursic, V. L. (1986). A longitudinal study of the use of the elderly in magazine advertising. Journal of Consumer Research, 13(1), p. 131-133.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Cheiro do Ralo

Não há sociedade sem materialidade. Os objetos que usamos e que estão presentes em nosso cotidiano representam essa condição. Compõem a cena doméstica – inclusive a paisagem urbana. Na maior parte do tempo, passam despercebidos e são lembrados quando necessários. Nesses casos, recebem sentidos, ganham significados e até se tornam símbolos. É algo inerente à cultura material.

O filme O Cheiro do Ralo (Brasil, 2007, Comédia/Drama, 112 minutos), direção de Heitor Dhalia, roteiro de Lourenço Mutarelli, Marçal Aquino e Heitor Dhalia, com Selton Mello e Paula Braun, revela de forma ímpar a transversalidade da cultura material em nosso cotidiano. Tal revelação ocorre de forma dolorosa por meio da transferência de posse dos objetos, que é algo central no enredo do filme. De modo estarrecedor, o filme trata de valor material, valor monetário e valor simbólico.

Trata-se de oportunidade para se observar significados que atribuímos aos objetos ao tê-los sob nossa posse e uso. É, também, uma ótima ocasião para verificar aquilo que outros lhe atribuem quando colocados em perspectiva de troca e comercialização e não apenas de uso. Dito de outra maneira, é uma excelente oportunidade para assistirmos de que maneira construímos e transferimos significados para os objetos – poderia até servir de ilustração para algumas das obras de Daniel Miller ou Grant McCracken.

Esse post compõe uma série chamada "Filme". Trata-se de sugestões de filmes.

domingo, 1 de julho de 2012

A bobagem da pegada ecológica


A Rio +20 terminou, muito se discutiu e mais uma vez, longe das atribuições de responsabilidades aos Estados membros da ONU (Organização das Nações Unidas), várias organizações que defendem a sustentabilidade voltaram suas baterias para o indivíduo, especificamente para o consumo de recursos naturais por parte dos indivíduos e, por conseguinte, de suas famílias. A capacidade que organizações como, por exemplo, a WWF (Fundo Mundial para a Natureza) possuem para responsabilizar o consumidor individual pelas condições do planeta, muitas vezes beira a falta de bom senso. As relações de consumo entre consumidores individuais e organizações empresariais, em termos de capacidade de agência, são absolutamente assimétricas. Atribuir, portanto, a responsabilidade pela salvação do planeta ao consumidor individual é algo, sem sombra de dúvidas, inócuo!

Na tentativa de mensurar e, por conseguinte, responsabilizar o consumo individual pelo uso de recursos e pela condição de sustentabilidade do planeta, a Global Footprint Network criou, tempos atrás, uma forma de calcular o que chamam de pegada ecológica. Trata-se de mensurar o quanto de recursos naturais cada indivíduo consome e qual é o impacto desse consumo – ou do estilo de vida do indivíduo – sobre o meio ambiente.

Mais importante, e necessário, seria focar sobre o consumo de recursos por parte de organizações empresariais – companhias nacionais, multinacionais e transnacionais – e o impacto sobre o meio ambiente decorrente desse consumo. Os vestígios ecológicos que consumidores organizacionais deixam são enormes e terminam por definir o tamanho e a intensidade das pegadas dos consumidores individuais.
 
Referências Conexas
 
Maia, G. L. &Vieira, F. G. D. (2004). Marketing verde: estratégias para produtos ambientalmente corretos. Revista de Administração Nobel, 2(3), p. 21-32.
 
Oliveira, J. S. & Vieira, F. G. D. (2008). Produção simbólica e sustentabilidade: discutindo a lógica da salvação da sociedade pela mudança nos modos de consumo. Caderno de Administração (UEM), 16(2), p. 35-43.

sábado, 16 de junho de 2012

Consumo do trânsito no Brasil

Pedestres, ciclistas, motoqueiros, motoristas. Transportes individuais, transportes coletivos. Avenidas, ruas, vielas, becos. Espaços públicos, democráticos, igualitários por excelência. É o que se supõe! A rigor, o consumo do trânsito enquanto ato de deslocamento, transporte, trabalho ou lazer, nega a igualdade, estabelece uma hierarquia e prioriza a individualidade. É o que se depreende a partir da leitura do ótimo livro “Fé em Deus e pé na tábua – ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil”, escrito pelo antropólogo Roberto DaMatta com a colaboração de João Vasconcellos e Ricardo Pandolfi, publicado em 2010 pela editora Rocco. O consumo do trânsito no cotidiano brasileiro separa os que estão em perigo – pedestres – e os que pretensamente estão protegidos – aqueles a bordo de veículos. A vestimenta da couraça do veículo no trânsito reforça o traço cultural brasileiro de construir hierarquias no espaço público – algo do tipo “se você não sabe com quem está falando, saia do meio senão eu lhe atropelo”. Por outro lado, o famoso jeitinho, embora seja também aplicado às condições e situações do trânsito, tem os seus limites perante um sinal vermelho. Até é possível desconsiderar o sinal e não parar, mas isso pode significar um risco para a própria vida. O fato é que o consumo do trânsito apenas revela a falta de discernimento quanto à condição coletiva do espaço público, bem como a enorme dificuldade para se cumprir regras em nosso país.

Esse post compõe uma série chamada "Olhar Acadêmico". Trata-se de observações sobre trabalhos acadêmicos na forma de artigos, dissertações, teses ou livros relacionados direta ou indiretamente ao campo de cultura e consumo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O garçom do futebol e o autoconsumo do individualismo


O futebol é, antes de tudo, um esporte coletivo. Há diferentes funções exercidas por cada um dos membros da equipe e diversas formações táticas em que cada uma das funções tem importância para a conquista da vitória. É curioso como ao longo do tempo, em diferentes lugares, mas especialmente no Brasil, o artilheiro, o jogador que faz o gol, tornou-se o mais importante ou pelo menos o mais valorizado da equipe.

Não quero dizer aqui, a exemplo do que afirmou um ex-técnico da Seleção Brasileira de Futebol, que o gol é apenas um detalhe. Mas o fato é que se forjou o artilheiro como superior aos demais membros da equipe. Em alguns casos, esse mesmo artilheiro, que em geral é o centroavante, também consegue driblar o adversário e obter performances plásticas que encantam a torcida do seu clube.

Na música “É Uma Partida de Futebol”, gravada pela banda mineira Skank, Samuel Rosa e Nando Reis afirmam que o centroavante é o mais importante. Mas dizem, por outro lado, que é no meio-campo que estão os craques e que são eles os regentes que levam a equipe para o ataque. É notável tal condição. O centroavante é o mais importante, mas aparentemente não o seria se não fosse o trabalho do craque – aquele que prepara a jogada para o gol.

Narradores e comentaristas de futebol, ao se apropriarem do espetáculo proporcionado pelo futebol ao longo das transmissões de rádio e TV, criaram a figura do garçom do futebol: aquele jogador que dá o último passe para que o artilheiro faça o gol. Pela posição ocupada em campo e pela armação da jogada, o que a crônica chama de garçom é, em grande parte das ocasiões, o craque do time.

Ocorre que poucas coisas são tão díspares na mídia quanto os comentários dos analistas de futebol. Ademais, o sentido que empregam à palavra garçom não é, necessariamente, um sentido que coloque o craque em pé de igualdade ao artilheiro. O garçom, enquanto categoria, ou o trabalho do garçom, como expressão de condição social, não são objetos de glamour e não fazem parte da sociedade do espetáculo. Já o artilheiro, o homem-gol, faz.

Ora impulsionado pela exaltação da crônica esportiva, ora inebriado pela sua própria vaidade, o artilheiro, em geral, não sabe compartilhar, é avaro – o popular fominha – e não reconhece a jogada do craque. Para constatar, basta olhar como ele corre sozinho na comemoração do gol, invariavelmente em direção oposta àquela de quem lhe deu o passe para a finalização – o craque, chamado de garçom. É o autoconsumo do individualismo. A negação do trabalho coletivo no momento mágico da comemoração do gol.

Referências Conexas

Bajde, D. (2006). Other-centered behavior and the dialetics of self and other. Consumption Markets & Culture, 9(4), p. 301-316.

Campos, R. B. C. (2004). Sociedades complexas: indivíduo, cultura e o individualismo. CAOS – Revista Eletrônica de Ciências Sociais, (7), p. 8-22.

Kellner, D. (2003). A cultura da mídia e o triunfo do espetáculo. Líbero, 6(11), p. 4-15.

Retondar, A. M. (2007). A (re)construção do indivíduo: a sociedade de consumo como “contexto social” de produção de subjetividades. Sociedade e Estado, 23(1), p. 137-160.