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domingo, 3 de outubro de 2010

Cultura da transferência da responsabilidade

A culpa é sempre sua, nunca minha! Essa é uma máxima que se verifica cotidianamente das mais diferentes formas na sociedade brasileira hoje em dia. Nas relações profissionais e mesmo nas relações de caráter pessoal, é possível observar o quanto se transfere para outros a responsabilidade por atos e ações que são sinônimos de problemas, equívocos ou resultados avaliados como negativos.

Exemplos simples desse fenômeno podem ser constatados de diversas maneiras: o gerente nunca é o responsável, o funcionário é que não soube fazer o trabalho; o vendedor não deve ser responsabilizado, o problema é da fábrica que produziu o produto com defeito; o entregador não poderia fazer melhor, o trânsito é que estava horrível; o governador não tem como apresentar uma solução mais adequada, pois a legislação não permite; o deputado não pode fazer algo diferente, dado que a pauta das votações está trancada; o policial não pode implementar adequadamente a lei seca, já que há apenas um bafômetro na cidade; o garçom não pode responder pelo erro no pedido, visto que foi o cozinheiro que não prestou atenção no prato; é possível, sim, agir de uma determinada forma, a interpretação da legislação é que não está correta.

Dito de uma forma simples, é como se houvesse uma condição tácita de que se algo aconteceu de errado, a culpa não é minha; pelo contrário, é dele ou dela. Culturalmente, esse fenômeno parece ter uma relação com a situação de querer estar em vantagem em relação ao outro. Se a responsabilidade é sempre dos outros e nunca de um determinado indivíduo, esse tenderá a estar sempre em uma situação de harmonia com os interlocutores que tem em perspectiva e, por conseguinte, jamais em situações desconfortáveis de conflito. Tem-se, assim, e em tese, uma condição em que o indivíduo está pessoal ou profissionalmente envolvido, mas nunca é responsabilizado.

Esse fenômeno cultural tende a ser recrudescido devido não só ao ambiente cada vez mais competitivo das organizações brasileiras, como também à crescente fragilidade dos vínculos pessoais e profissionais nessas mesmas organizações.

Referências Conexas

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

DaMATTA, Roberto A. O que faz o Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

VIEIRA, Francisco. G. D. ; CRUBELLATE, João M.; SILVA, Ilse G. ; SILVA, Wânia. R. Silêncio e omissão: aspectos da cultura brasileira nas organizações. Revista de Administração de Empresas – Eletrônica, v. 1, n. 1, p. 1-14, 2002.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Recall de automóveis no Brasil

O que está acontecendo com a indústria automobilística? Motivo de orgulho e ao mesmo tempo considerado um ícone de eficiência, o padrão de produção dessa indústria tem mostrado inúmeras falhas. Nunca foi realizado tanto recall para se reparar problemas e erros na fabricação de automóveis como nos últimos tempos. É fato que os órgãos fiscalizadores têm sido mais diligentes, assim como é fato que a imprensa anda mais atenta e crítica com o mercado. Todavia, é possível que parte das explicações possa ser atribuída à a expansão acelerada da produção em anos recentes e aos desdobramentos que tal expansão acarreta.

Realizados devido a rodas que se desprendem, rodas que travam devido ao mau funcionamento de rolamentos, aceleradores que ficam presos ou airbags que não são acionados quando necessários, entre outros motivos, os números acerca dos recalls são alarmantes. No Brasil, a Vokswagen fez um recall de quase 200 mil automóveis dos modelos Voyage e Novo Gol. A Fiat também teve problemas com o seu modelo Stilo. Até mesmo as consagradas Toyota e Honda apresentaram problemas com os modelos Corola e Fit, respectivamente. Estima-se que no primeiro caso o recall seja para 100 mil e no segundo para quase 200 mil. São números por demais eloquentes.

Costuma-se dizer que “brasileiro adora carro”. De fato, o consumo de automóveis como um símbolo imediato de mobilidade e ascensão social está presente na cultura do país. Talvez, entretanto, isso não seja tão diferente daquilo que ocorre em outros países. O que é bem provável ser diferente é o rigor da legislação dos países do hemisfério norte. Via de regra, as montadoras que operam no mercado brasileiro tendem a negar e desmentir os problemas, assim como postergar as soluções para os mesmos até o momento em que se tornam insustentáveis. Para isso, por um lado fazem uso da cultura do silêncio que lhes é própria, e por outro contam com a cultura da omissão do Governo brasileiro.

Referências Conexas

HOFFER, George E.; PRUITT, Stephen W. ; REILLY, Robert J. When recalls matter: factors affecting owner response to automotive recalls. Journal of Consumer Affairs, v. 28, n. 1, p. 96-106, 1994.

MATOS, Celso A. de; ROSSI, Carlos A. V. Consumer reaction to product recalls: factors influencing product judgement and behavioural intentions. International Journal of Consumer Studies, v. 31, n. 1, p. 109-116, 2007.

VIEIRA, Francisco. G. D. ; CRUBELLATE, João M.; SILVA, Ilse G. ; SILVA, Wânia. R. Silêncio e omissão: aspectos da cultura brasileira nas organizações. Revista de Administração de Empresas – Eletrônica, v. 1, n. 1, p. 1-14, 2002.