domingo, 30 de dezembro de 2012

De frente para o mar


O Brasil possui um território extenso e diverso. De quase tudo tem um pouco em termos de topografia e clima. No entanto, quando se trata de viagem em férias, os brasileiros praticamente só pensam no litoral. Férias é sinônimo de praia.

Deu no InfoMoney que 7 das 10 cidades brasileiras mais procuradas por turistas em períodos de férias são litorâneas. Pela ordem, as cidades mais procuradas são: Porto Seguro, Maceió, Fortaleza, Natal, Gramado, Rio de Janeiro, Florianópolis, Balneário Camboriú, Foz do Iguaçu e Caldas Novas.

Curiosidade: quatro entre as 7 cidades à beira-mar ficam no Nordeste, uma no Sudeste e duas no Sul; duas dessas cidades estão entre as mais populosas do país: Rio de Janeiro e Fortaleza, respectivamente a segunda e quinta cidades de maior população.

O mar, ou aquilo que está relacionado à costa marítima, parece mesmo exercer um fascínio incomum. Porém, é bem provável que parte dessa procura pelo litoral se deva à ação de agentes – experts, agências de viagens, operadoras, companhias de transporte e de serviços de hotelaria – que atuam no mercado de turismo.

Esse post compõe uma série chamada "Web News". Trata-se de observações acerca de notícias relacionadas a cultura e consumo publicadas na World Wide Web.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Décio Pignatari: um poeta concreto


A poesia brasileira, que é esquecida e não faz parte da lista de consumo para o Natal, despediu-se no dia de ontem de Décio Pignatari. Poeta concreto, intelectual inquieto e avesso ao lugar-comum, Décio Pignatari ofereceu considerável contribuição à literatura brasileira. Após seus escritos e teorizações, a partir dos anos 1950, juntamente com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, a cena poética paulista e brasileira nunca mais foi a mesma.
 
Em saudação a sua memória, posto abaixo o poema Fio que eu escrevi tempos atrás sob influência do concretismo.


                                                 FIO

                                                   I

                              barulho seco    disparo
                                                     estilhaço
                              estado de        choque
                                                     partida
                              barulho cheio  velocidade
                                                     batida
                              estado de        choque
                                                     esforço
                              a vida num      traço
                                                    traça-se
                              a vida num      fio
                                                    tece-se

                                                 II

                                       re traça vida
                                                    davi
                                                    vida re fia
                                                    davi
                                           traço vida
                                                    davi
                                                    vida     fio

domingo, 25 de novembro de 2012

Degustação de uísque

É bastante comum associar bebidas a um país e vice-versa. Os ingredientes que nelas são usados, o modo de preparo e como são servidas, entre outros aspectos, ajudam muito a entender os hábitos, valores e códigos culturais de uma determinada região geográfica. O uísque, considerado símbolo nacional da Escócia, é uma das bebidas que se tornaram referência de um povo e de um lugar.
 
Encontrado atualmente em todo o mundo, o uísque é motivo de orgulho para o escocês, que procura oportunidades de tentar diferenciá-lo e mostrar o quão especial é a produção da bebida em suas terras de origem. A degustação pública, no âmbito de restaurantes, é um expediente usado nesse sentido, especialmente por parte de pequenos produtores locais e regionais.
 
Obs.: a foto acima é de uma degustação de uísque no Restaurante Horsemill, Castelo Crathes, cidade de Banchory, Escócia.
 
Esse post compõe uma série chamada "Nota de Viagem". Trata-se de observações realizadas durante viagens.

domingo, 4 de novembro de 2012

Entre sombras e cortinas

Tão próximos, mas tão distantes. Assim são os moradores dos inúmeros prédios residenciais existentes nas cidades. Eles experimentam a condição de ter do outro lado da parede ou do outro lado da rua pessoas que não passam de meros estranhos.
 
Cada vez mais construídos com menor distância entre um e outro, os edifícios são responsáveis por boa parte das dimensões materiais do espaço social. Concepções de produtos e estruturas de consumo, bem como hábitos de convivência no cotidiano derivam diretamente da configuração desses imóveis.
 
A princípio construídos apenas nos centros das cidades, hoje os edifícios adentram áreas de bairros residenciais e do entorno das cidades. Refletem o crescimento econômico, mas também indicam uma escolha por um determinado modelo de ocupação do espaço urbano.
 
O total do financiamento imobiliário em todo o país até o mês de outubro foi de R$ 80,2 bilhões. Segundo a Caixa Econômica Federal esse valor supera em 32,6% o valor concedido em período semelhante do ano passado. O efeito multiplicador desse volume de recursos para a economia é algo fenomenal, mas não há como obscurecer o caráter predatório da construção civil e a especulação de terrenos em áreas urbanas e na definição de tamanhos e formatos de imóveis.
 
A ocupação do espaço urbano por meio dos edifícios tem feito com que cada vez mais estejamos vivendo fisicamente perto uns dos outros. Trata-se apenas de uma proximidade disfarçada. A rigor, essa forma de produção da vida social revela claramente que vivemos de modo alheio uns aos outros. Uma vida entre sombras e cortinas.
 
Referências Conexas
 
Berker, T. (2011). Domesticating spaces: sociotechnical studies and the built environment. Space and Culture, 14(3), p. 259-268.
 
Low, S. M.; & Lawrence-Zúñiga, D. (2003). The anthropology of space and place: locating culture. Oxford: Blackwell Publishers.
 
McCarthy, C. (2005). Toward a definition of interiority. Space and Culture, 8(2), p. 112-125.
 
Shadar, H.; Orr, Z.; & Maizel, Y. (2011). Contested homes: professionalism, hegemony, and architecture in times of change. Space and Culture, 14(3), p. 269-290.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Maldito Futebol Clube


Imagine como tirar um time do fim da tabela da segunda divisão e levar esse time ao posto de campeão. Melhor ainda, suponha conduzir esse mesmo time não apenas a vencer o campeonato da segunda divisão, mas também a ser campeão da primeira divisão – posto máximo do futebol no país. Agora considere tudo isso em meio a uma boa porção de confusão e discussões sobre futebol-arte versus futebol-força, catimba e pressão sobre a arbitragem. Tudo isso está presente ao longo de 97 minutos em Maldito Futebol Clube, filme britânico de 2009, com roteiro de Peter Morgan, dirigido por Tom Hooper. Além de todos esses aspectos há, ainda, uma visada sobre um processo de tentativa de mudança e definição de hábitos e valores dentro de um grupo. O personagem central desse processo, e do filme, é Brian Clough, muito bem interpretado pelo ator Michael Sheen.
 
Brian Clough foi um personagem real, técnico do Derby Count, e durante anos contou com a excelente ajuda de Peter Taylor (Timothy Spall) como seu assistente. Eles fizeram história no Derby Count e no futebol inglês. O maior rival de Clough foi Don Revie (Colm Meaney), técnico do Leeds United, clube que posteriormente Clough chegou a dirigir, mas onde experimentou um duro revés. Essa rivalidade serve como uma espécie de pano de fundo para o filme.
 
O futebol é o esporte de maior consumo e o mais amplo item de entretenimento e lazer em nosso país. Embora o filme objeto deste post se passe na Inglaterra, ele tem um caráter universal. Vale a pena assisti-lo e observar especialmente como são construídas e articuladas algumas das dimensões desse entretenimento por trás dos bastidores. Inclusive no que se refere ao papel da imprensa, sempre crítica de tudo e de todos, mas raramente criticada.
 
Esse post compõe uma série chamada "Filme". Trata-se de sugestões de filmes.
 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O encanto pela “nova classe média” brasileira

É praticamente impossível passar ao menos uma semana sem se deparar com alguma notícia ou matéria de caráter especial publicada pela imprensa sobre a chamada nova classe média. Ela está na TV, nos jornais, no rádio e nas revistas, em uma profusão de informações poucas vezes percebida. É quase que como se o país estivesse tentando se redimir de sua histórica concentração de renda.
 
É curioso esse fenômeno. Poderíamos nos perguntar: a quem interessa toda essa atenção? Afinal, não se trata exatamente de um debate público sobre a distribuição de renda ou sobre o processo de mobilidade econômica experimentado nos últimos anos no país.
 
Certamente, a mídia, empresas de consultoria, instituições de ensino e pesquisa, bem como a indústria editorial, possuem grande interesse em torno da ideia de uma nova classe média. Embora pouca gente perceba, até o Governo Federal, por meio da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, tem considerável interesse na nova classe.
 
Mas quem é ela? Não há uma resposta simples para essa pergunta. Algo que deveria estar claro, mas ainda não está, é o fato de que o conceito em questão se refere à classe de rendimento econômico e não à classe social – que é outro conceito e envolve aspectos vinculados à identidade e ocupação social. Além disso, falta unicidade no tratamento à nova classe média, especificamente em torno dos valores de rendimento econômico que a define.
 
Como ela é constituída? Para a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, pertencem à nova classe média famílias com renda per capita de R$ 291 a R$ 1.019, havendo três subgrupos nessa faixa de rendimento: a baixa classe média, a média e a alta classe média. Já a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) considera como nova classe média as famílias que possuem uma renda mensal entre R$ 714 e R$ 1.541, incluindo-se aí uma variação do que a ABEP entende como classes D, C2 e C1. Por outro lado, o Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas considera que nova classe média é aquela que tem um rendimento mensal familiar entre R$ 1.064 e R$ 4.561.
 
Como se percebe, não há uma convergência a respeito do que se chama de nova classe média. Governo, empresas e instituições de ensino e pesquisa não têm a mesma compreensão do que ela seja, mas possuem grandes interesses a seu respeito. Nesse sentido, embora os interesses sejam difusos, há um fio que de alguma maneira os une. O conceito de classe média é útil para o mercado e para a construção de inúmeros significados em torno do consumo, bem como é vantajoso para o governo na definição de políticas públicas e, sobretudo, no uso midiático de comunicação social. De uma forma bastante direta, tem-se a compreensão simples, porém funcional e utilitarista, de que ser classe média é bom. Afinal, classe média não é classe baixa!
 
Um aspecto de menor glamour, porém bastante real, e sobre o qual pouco se fala, diz respeito ao nível de comprometimento da renda familiar no Brasil. O endividamento das famílias bateu novo recorde em junho. Naquele mês, um total de 22,38% da renda familiar destinou-se ao pagamento de dívidas. Considerando-se que a nova classe média praticamente não possui renda discricionária, qual é, efetivamente, o poder de compra e consumo da nova classe média?
 
Referências Conexas
 
Castilhos, R. B. (2007, setembro). Subindo o morro: consumo, posição social e distinção entre famílias de classes populares. Anais do Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 31.
 
Hemais, M. W.; Casotti, L. M.; & Rocha, E. P. G. (2010, setembro). Hedonismo e moralismo no incentivo ao consumo na base da pirâmide: discussão para a proposta de uma agenda inicial de pesquisa. Anais do Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 34.
 
Karnani, A. (2008). Help, don’t romanticize, the poor. Business Strategy Review, 19(2), p. 48-53.
 
Nogami, V. K. da C.; & Vieira, F. G. D. (2012, setembro). Reflexões acadêmicas e de mercado para o marketing na base da pirâmide. Anais do Encontro Nacional de Estudos do Consumo, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 6.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Abandono de produtos como forma de anticonsumo

Os estudos publicados no campo de cultura e consumo nos reportam fenômenos de consumo e procuram analisá-los em inúmeros eixos temáticos, desdobramentos teóricos e situações empíricas. Em geral, tais estudos abordam o processo de aproximação, aquisição, posse, uso e incorporação de objetos materiais. São pouco frequentes, ou até mesmo raros, estudos, dentro do próprio campo, que tratam de abandono de produtos ou anticonsumo. Publicado recentemente, o artigo “Motivações e significados do abandono de categoria: aprendizado a partir da investigação com ex-fumantes e ex-proprietários de automóveis” (Cadernos EBAPE.BR, v.10, n. 2, p. 411-434, 2012), de autoria de Maribel Suarez, Marie Agnes Chauvel e Letícia Casotti, de algum modo procura preencher essa lacuna. Tomando como referência para análise duas categorias de produtos, automóvel e cigarro, o artigo destaca e diferencia três tipos de abandonos: o abandono contingencial, o posicional e o ideológico. Trata-se de uma ótima contribuição no sentido de melhor entendermos como o anticonsumo pode ocorrer por meio do processo de abandono de produtos.
 
 
Marie Agnes Chauvel
 
 
Uma das autoras do artigo, a Professora Marie Agnes Chauvel, deixou-nos no último mês de julho. Francesa radicada no Brasil desde jovem, Marie realizou sua formação acadêmica em nosso país. Trabalhou como assistente e analista na área de administração em empresas brasileiras e foi professora e pesquisadora de instituições como a UFRJ, o IBMEC, a Universidade Estácio de Sá, o ISAE/FGV, a PUC-RJ e a Universidade Federal de São João Del-Rei. Escreveu vários artigos e orientou dezenas de trabalhos acadêmicos. Marie era uma referência em estudos sobre consumo no Brasil e sua ausência será sentida.

Esse post compõe uma série chamada "Olhar Acadêmico". Trata-se de observações sobre trabalhos na forma de artigos, dissertações, teses ou livros relacionados direta ou indiretamente ao campo de cultura e consumo.