domingo, 3 de maio de 2020

Devido à pandemia, o que será do Google Local Guides?


Google Local Guides

Eu nem sou de sair tanto assim de casa, mas nessa pandemia estou com saudades até do Google Local Guides. Ao longo desses dias me vi pensando sobre como será que está funcionando o Local Guides. Será que o estão usando? Creio que sim. Mas como será que o estão usando? Se as pessoas estão em isolamento social, lockdown, quarentena, enfim, que velhos sentidos permanecem e que novos sentidos foram criados para o Local Guides? Uma parcela considerável da estrutura de oferta de produtos e serviços que é avaliada por meio do Local Guides está fechada, operando com restrições ou operando apenas por meio do sistema de delivery. Desse modo, parte importante dos recursos originais do Local Guides parece estar comprometida. 

O Local Guides se baseia em conceitos como área geográfica, mapas, rotas, deslocamentos e, naturalmente, lugares - que vão desde organizações e espaços públicos até empreendimentos comerciais e de prestação de serviços. Aparentemente, uma premissa importante do Local Guides é o conceito de criação de valor, ou melhor, de co-criação de valor. Após ter uma experiência de relacionamento ou consumo em algum lugar, o usuário da plataforma Local Guides tem a possibilidade de atribuir uma nota por meio de uma escala de 1 a 5 estrelas, bem como fazer um comentário a respeito desse lugar. A nota atribuída ou comentário realizado pode ajudar outras pessoas sobre suas decisões de compra e consumo.

É possível lançar muitos olhares para a plataforma Local Guides e tentar compreendê-la por meio de frameworks vinculados às perspectivas de economia compartilhada (Cultura de Consumo) ou de agências calculativas (Estudos de Mercado Construtivistas), por exemplo. No entanto, o que o será feito com, e por meio da plataforma, permanece um mistério - pelo menos por enquanto. A única coisa que o Google fez até um momento foi enviar o que chamou de aviso: "vamos compartilhar diversos conteúdos: de útil e instrutivo a divertido e inspirador".    

Será que o Google criou algum recurso novo para orientar as pessoas em relação ao Covid-19? Será que o Local Guides pode se transformar em um recurso que pode trazer segurança sanitária para seus usuários? É possível que tenhamos essas respostas dentro em breve.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Chico Buarque e Camões



Salve, Chico! Parabéns pelo prêmio Camões! Na verdade, você não precisa de meus cumprimentos, mas como estou com Essa Gente em cima da mesa, escrevo-lhe esse bilhete. De certa forma o acompanho desde A Banda. Era apenas uma criança. Não entendia direito o que você queria dizer, mas gostava do ritmo e da alegoria da banda passando. Na cidade de Cajazeiras, onde nasci, lá no sertão da Paraíba, havia um coreto e era lá que as bandas tocavam. Era um lugar duplamente mágico, porque além de o coreto ficar na praça em frente a igreja, era o centro das quermesses. Só fui entender mesmo alguma coisa do que você dizia quando eu já estava na universidade, em Campina Grande. Lembro-me como fiquei fascinado por Almanaque. Eram tantas perguntas. Lá estava Tanto Amar, que quase é Tanto Mar. E por falar nisso, sua sugestão foi seguida: a despeito da inexistência de cravos vermelhos, aqui em casa tem um vasinho com alecrim. Obrigado por suas músicas e livros. Camões está bem acompanhado.

Em tempo: em que pesem todos os debates em torno de questões como mérito e relevância dos prêmios, via de regra eles são compreendidos como uma forma de reconhecimento da excelência. Também podem ser compreendidos, claro, como uma prática representacional para a formatação de mercados.

domingo, 12 de abril de 2020

Cultura e consumo no Brasil




Organizado por Marcelo de Rezende Pinto e Georgiana Luna Batinga, professores da PUC Minas e da UFMS, respectivamente, o livro Cultura e Consumo no Brasil: estado atual e novas perspectivas é leitura obrigatória para pesquisadores e estudantes do campo de estudos de consumo. 

Publicado em 2018 pela Editora PUC Minas, o livro possui prefácio, texto de introdução escrito pelos organizadores, e mais treze capítulos, independentes entre si, assinados por vários pesquisadores brasileiros de diferentes instituições. Ao longo de 335 páginas, o livro está organizado da seguinte forma:

Prefácio
Letícia Moreira Casotti

Por que cultura e consumo no Brasil?
Marcelo de Rezende Pinto, Georgiana Luna Batinga

1. Preparando o caminho para a chegada da Consumer Culture Theory
Roberta Dias Campos, Thaysa Nascimento, Valéria de Pinho

2. Os estudos de consumo em uma perspectiva cultural e simbólica sob a ótica da teoria de marketing
Dalton Jorge Teixeira, Helena Belintani Shigaki

3. O campo da pesquisa da cultura de consumo no Brasil
Ronan Torres Quintão

4. Representações da família brasileira de baixa renda na mídia: um caso pioneiro à luz da cultura de consumo
Luís Alexandre Pessôa, Marcus Wilcox Hemais

5. Azul para os meninos, rosa para as meninas: heterossexismo, consumo, gênero e sexualidade
Severino Joaquim Nunes Pereira, Heloisio Moulin de Souza

6. Falsificação sim, mas de coração! Uma investigação interpretativa sobre o ato de presentear com produtos falsificados
Matheus Lemos de Andrade, Ramon Silva Leite, Silvia Salvador de Oliveira

7. O jovem brasileiro e o fenômeno do funk ostentação: um estudo avaliando a posição do jovem de alta e baixa renda
Sérgio Silva Dantas

8. Dialética dos extremos: refutando mitos sobre consumo erótico feminino
Luciana Castello da Costa Leme Walther

9. Transformative consumer research: reflexões, diretrizes e a interlocução com a Consumer Culture Theory
Gustavo Tomaz de Almeida, Bruno Medeiros Ássimos

10. A semiótica social, seus recursos e noção de cultura: abordagens úteis à CCT
Luiz Antônio Mattos do Carmo

11. Discutindo articulações entre a Consumer Culture Theory - CCT e a teoria da prática
Adriano de Mendonça Joaquim

12. Colocando a América Latina no/fora do mapa da CCT: caminhos para uma travessia teórico-reflexiva latino-americana em estudos de cultura do consumo
Marlon Dalmoro, Getúlio Sangalli Reale

13. Do olhar para o indivíduo à perspectiva de sistemas de mercado: uma análise dos distintos focos de estudo e o futuro da pesquisa em CCT
Rodrigo Bisognin Castilhos, Marcelo Jacques de Fonseca

domingo, 5 de abril de 2020

Trabalho na economia GIG e isolamento social



Nota: Escrito no auge das restrições de 2020, este texto explorava o paradoxo da economia GIG: a celebração da autonomia versus a dependência de uma rede de proteção estatal em tempos de crise. Seis anos depois, o debate sobre a 'quimera' da liberdade individual no trabalho por aplicativos tornou-se o centro das políticas regulatórias globais, confirmando que a independência absoluta entre capital e trabalho é, de fato, insustentável sem a mediação institucional.

Uma das questões que mais despertam a atenção, e que têm sido problematizadas nesse período que estamos vivendo devido à pandemia do Coronavírus, diz respeito ao emprego, notadamente ao trabalho e àquilo que a ele está circunscrito. O trabalho está no centro das atenções não só porque é fator fundamental para a produção de bens e serviços, mas também porque as relações em torno do mesmo definem como a sociedade se organiza.  

A experiência de isolamento social que está sendo levada a efeito em várias cidades em todo o mundo tem colocado em destaque e parece favorecer a chamada economia GIG, que tem servido de base para a formatação de inúmeros mercados. Em tal modelo de economia, os trabalhadores são temporários, trabalham por atividade, não possuem salário fixo, usam seus próprios meios e estrutura operacional, e executam tarefas de maneira remota, dentre outras características. 

A economia GIG pode, de fato, ser capaz de responder parte importante dos desafios de hoje - em pleno isolamento social - e do futuro que se avizinha. Entretanto, há limitações muito claras em seu modelo de operação. Talvez as principais, e de modo paradoxal, estejam exatamente vinculadas às circunstâncias da realidade que estamos enfrentando: a autonomia, liberdade individual e independência entre empresas e trabalhadores na articulação de suas relações de trabalho não prescindem do Estado para a organização e coordenação de soluções em momentos de crise. Nesse sentido, talvez a economia GIG seja apenas uma quimera. 

Referências Conexas

Friedman, G. (2014). Workers without employers: shadow corporations and the rise of the gig economy. Review of Keynesian Economics, 2(2), 171-188.

Leme, A. C. R. P., Rodrigues, B. A., & Chaves Júnior, J. E. R. (Coords.) (2017). Tecnologias disruptivas e a exploração do trabalho humano: a intermediação de mão de obra a partir das plataformas eletrônicas e seus efeitos jurídicos e sociais. São Paulo: LTR.

Pinch, T., & Swedberg, R. (Eds.) (2008). Living in a material world: economic sociology meets science and technology studies. Cambridge: MIT Press.

Swedberg, R. (2003). Principles of economic sociology. Princeton: Princeton University Press.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

O que será da experiência de consumo?



Em anos recentes a administração de marketing desenvolveu o conceito de experiência de consumo. Não basta comprar um produto qualquer. Isso pode ser feito por meio da internet, com entrega direta em domicílio. Mais importante do que o produto físico em si é a experiência em torno da sua aquisição. Transferindo o conceito da compra de produtos físicos para o setor de serviços, onde não há a materialização física daquilo que se compra, o conceito de experiência de consumo ganha ainda mais importância. Mas considerando as circunstâncias que temos vivido ao longo das semanas mais recentes, e diante das incertezas que o futuro nos reserva, que desdobramentos terá o conceito de experiência de consumo após a pandemia do Coronavírus? 

Referências Conexas

Lusch, R. F., & Vargo, S. L. (2006). Service-dominant logic: reactions, reflections and refinements. Marketing Theory6(3), 281-288.

Vargo, S. L., & Lusch, R. F. (2004). Evolving to a new dominant logic for marketing. Journal of Marketing, 68(1), 1-17.

domingo, 29 de março de 2020

Lockdown e limites morais do mercado



Muito se discute se a decisão mais acertada é manter um regime de isolamento social ou permitir a livre circulação de pessoas nesses dias difíceis em que o mundo se encontra diante de uma pandemia causada pelo Coronavírus (Covid-19). Virologistas, epidemiologistas, especialistas no campo da medicina, enfim, defendem o isolamento horizontal (envolvendo quase toda a população), enquanto alguns atores do mercado defendem o isolamento vertical (envolvendo apenas pessoas que estão em grupos de risco - idosos e pessoas com doenças crônicas).

Não parece haver dúvida que a decisão mais consequente é a do isolamento horizontal. Não obstante, atores do mercado têm insistido no argumento de que tal isolamento causará a destruição da economia, o que terminará produzindo o caos, e mais tarde comprometerá em parte a própria vida das pessoas. A rigor, sugerir uma escolha entre a vida das pessoas e a economia é sugerir uma escolha falsa, como apontado por Siva Vaidhyanathan em recente artigo publicado no The Guardian.

Em uma ou outra direção da discussão sobre a necessidade e o tipo de lockdown a ser implementado, o pano de fundo é a ação dos atores de mercado. Mais precisamente, que tipo de racionalidade adotam e como se comportam. Entre tais atores, e desde sempre, não há espaço para outro tipo de racionalidade que não seja a racionalidade instrumental. Ocorre que em momentos críticos parecem ser ainda mais perceptíveis os limites morais relativos à racionalidade instrumental de atores do mercado. Em outras palavras, definitivamente, há situações que transcendem a racionalidade e a noção de eficiência do mercado.

A título de sugestão, dois livros podem ajudar a compreender parte dos dilemas enfrentados nos dias atuais: Beyond the Market: the social foundations of economic efficiency, escrito por Jens Beckert, e Why Some Things Should Not Be For Sale, escrito por Debra Satz. Vale a pena a leitura.

Referências Conexas

Beckert, J. (2002). Beyond the market: the social foundations of economic efficiency. Princeton: Princeton University Press.

Satz, D. (2010). Why some things should not be for sale. Oxford: Oxford University Press.

quinta-feira, 26 de março de 2020

A quem interessa a nova Exame?



A partir de hoje começa uma nova etapa na trajetória da Exame, revista que outrora foi o principal veículo da mídia de difusão no tratamento do universo temático de negócios, finanças, economia e administração. A revista, que tem mais de 50 anos de existência, mudou ao longo do tempo, mas talvez nunca tenha mudado tanto como agora. O que esperar da nova Exame?   

A criação da internet, o avanço das tecnologias digitais e a criação de dispositivos eletrônicos de interação, acesso a dados e informações, bem como produção de conteúdos, transformaram a maneira como as pessoas se relacionam e se comunicam. Naturalmente, transformaram também a maneira como a imprensa veio a se organizar e estruturar a produção e distribuição de conteúdos. 

Jornais e revistas impressas passaram a enfrentar vários desafios para manterem seus assinantes, suas vendas e, por conseguinte, seus anunciantes. Excetuando-se eventuais dificuldades administrativas anteriores, empresas editoriais e veículos da mídia de difusão foram vendidos ou fechados em função dessas circunstâncias. Publicada anteriormente pela Editora Abril, a Exame é parte integrante desse processo: ela foi adquirida pela holding que controla o banco de investimento BTG Pactual.

A Exame informa que continuará produzindo conteúdo sobre finanças, economia, administração, enfim, sobre o mundo dos negócios. Entretanto, também informa que produzirá conteúdos em novas frentes, batizadas pela revista como Exame Research, Exame Academy, e Exame Experience. Tais frentes envolvem a produção de relatórios e conteúdos de investimento, a produção e distribuição de cursos, e a organização de eventos.     

Atores de mercado se organizam e se reorganizam em torno daquilo que se caracteriza como uma nova oportunidade, mas também do que atende aos seus interesses. Nitidamente, a proposta da nova Exame transcende aquele que é o modelo de negócio usual de um veículo da mídia de difusão. É possível que isso esteja relacionado aos propósitos de atores do mercado financeiro que desejam não apenas participar do debate nacional, mas moldar o próprio debate aos seus interesses.

Referências Conexas

Adorno, T. W. (2008). Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra

Davis, G. F. (2009). Managed by the markets: how finance reshaped America. Oxford: Oxford University Press.

Medeiros, J., Vieira, F. G. D., & Nogami, V. K. C. (2014). A construção do mercado editorial eletrônico no Brasil por meio de práticas de marketing. Revista de Administração Mackenzie, 15(1), 152-173.

Reinert, M. (2016). Sociologia dos mercados: ampliando as possibilidades de análise para a administração e o marketing. Revista Interdisciplinar de Marketing, 6(1), 40-43.

Zwick, D., & Cayla, J. (2011). Inside marketing: practices, ideologies, devices. Oxford: Oxford University Press.