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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Justiça (Minissérie da Globo)

- A justiça é mais cega do que a paixão?

- Fazer silêncio é fazer justiça?

 - Falta de justiça tem cura?

- Existe justiça na vingança?


Essas perguntas são feitas no trailer (veja acima) de Justiça, nova minissérie da Globo. O trailer é muito bem feito e sinaliza uma minissérie com roteiro inusitado. A Globo parece ter lembrado que o Brasil é mais do que São Paulo e Rio de Janeiro e ambienta a minissérie na cidade de Recife. Segundo a sinopse divulgada pela emissora, são quatro histórias paralelas com quatro protagonistas diferentes, um para cada dia da semana em que a minissérie será exibida (segunda, terça, quinta e sexta - quarta é dia de futebol na emissora). As histórias se cruzarão no encontro entre os personagens em uma delegacia. De algum modo a proposta narrativa da minissérie lembra a estratégia usada no roteiro de Crash - No Limite, filme de Paul Haggis que venceu o Oscar no ano de 2006 em três categorias: filme, roteiro original e edição. Se a minissérie será realmente boa, só a sua exibição irá revelar. As minisséries tendem a ser bons trabalhos, desde que se desenvolvam como obras fechadas e não caiam na tentação de fazer concessões para aumentar a audiência - o que, diga-se de passagem, é algo raro. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Mister Brau




Deu na edição de hoje do The Guardian: nunca antes, na história da televisão brasileira, houve um seriado com um casal de negros como protagonistas. Trata-se do seriado Mister Brau, exibido pela TV Globo às terças-feiras, às 22 horas, que tem os atores Lázaro Ramos e Taís Araújo representando os principais personagens. A narrativa do seriado sugere que os protagonistas tiveram uma trajetória de superação de dificuldades em suas vidas pessoais em direção ao sucesso. Em que pese parecer espelhar a mobilidade econômico-social acontecida em anos recentes no Brasil, é uma narrativa própria para consumo no universo da TV e do entretenimento, sobretudo tendo a música como fio condutor. Ver negros em posição de destaque na TV brasileira é algo basicamente restrito ao âmbito da música e do futebol. A rigor, a sociedade brasileira continua veladamente segregacionista, com inúmeros episódios de preconceito e intolerância racial. 

Referências Conexas

Lamont, M., & Molnar, V. (2001). How black use consumption to shape their collective identity. Journal of Consumer Culture, 1(1), 31-45.

Oliveira, J. S., & Vieira, F. G. D. (2009). Os bens de consumo como mecanismo de mediação da reprodução cultural das mulheres negras. Comunicação, Mídia e Consumo, 6(17), 73-99. 

Suarez, M. C., Motta, P. C., & Barros, C. (2009). Consumo e castigo: um retrato das relações de consumo no seriado "A Diarista". Anais do Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, São Paulo, SP, Brasil, 33.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Entretenimento em lugar de informação e análise



Parece que esqueceram que o Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão é um jornal - ou deveria ser um jornal. Se já não tinha análise, o jornal agora confunde informação com uma espécie de entretenimento de mau gosto. 

Ao tratar do nível de emprego (ou desemprego) no país, em uma reportagem que foi ao ar na noite de ontem (20/07/2015), o repórter trouxe São Longuinho para a reportagem, deu pulos e imprimiu um tom a sua fala como se estivesse fazendo uma matéria para o Fantástico - programa de final de semana da mesma emissora. Aparentemente, a ideia do repórter é que, considerando a queda no nível de emprego que atualmente ocorre no país, ao recuperar, ou no caso, achar o emprego de volta, o indivíduo deveria agradecer aquilo que estava perdido e foi recuperado dando três pulinhos para agradecer ao santo da Igreja Católica chamado São Longuinho - uma simpatia brasileira para quando se acha alguma coisa que estava perdida.

O jornalismo brasileiro pratica um mimetismo em relação às emissoras de TV estadounidenses com apresentadores falando em pé e circulando pelo estúdio e não mais ficando apenas sentados por trás das bancadas como antes. Agora é a vez das reportagens, em alguns casos, virarem peças de entretenimento. Pelo que se observa, pedir contextualização e análise seria pedir muito.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Vinhos e amores no Sertão


A minissérie Amores Roubados que a Rede Globo exibe desde 6 de janeiro é contextualizada no sertão nordestino, entre as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia. Baseada no livro A Emparedada da Rua Nova, do autor pernambucano Carneiro Vilela, a minissérie tem o seu enredo desenvolvido em torno do agronegócio erguido às margens do Rio São Francisco, especialmente das vinícolas lá instaladas. Em abril do ano passado, a companhia áerea Gol publicou uma revista de bordo com uma matéria apresentando a rota do vinho do Vale do São Francisco. As fotos que ilustram esse post foram feitas dessa revista, à época. A minissérie, com produção e direção acima da média da programação usual da TV brasileira, ajuda a despertar a atenção para o mercado e o consumo de vinhos no Brasil - consumo esse que mais do que dobrou nos últimos 10 anos e atingiu a marca de mais de 170 milhões de litros por ano.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A universidade chega às novelas

As novelas são importantes produtos para consumo e para entretenimento geral na América Latina. Nosso continente é especializado nesse tipo de produção. O Brasil e o México, particularmente, produzem muitas novelas.
 
A audiência da televisão por sinal aberto no chamado horário nobre, o das novelas, no entanto, tem caído sistematicamente no Brasil nos últimos anos. Possivelmente a internet e a TV a cabo, bem como o uso de vídeo games, têm contribuído para isso. Em que pesem a concorrência e a queda de audiência, o fato é que a novela continua sendo um forte produto de entretenimento. Não é a toa que a novela Avenida Brasil, exibida pela Rede Globo no ano passado, virou objeto de debate na mídia de difusão.
 
Críticos do gênero debruçaram-se sobre Avenida Brasil e procuraram entender as razões da sua audiência e explorar seus significados. Houve quem visse de tudo em Avenida Brasil: o caráter do país, as famílias de classe média, o mundo suburbano, a violência, a maldade, a ambição, a vingança, a inveja, o amor (em várias de suas formas), o ódio (em vários de seus modos), o futebol, a celebridade instantânea, e até a poligamia – curiosamente aceita pela audiência e praticamente não abordada de frente pela crítica.
 
As novelas são sempre construídas em torno daquilo que os autores e críticos chamam de núcleos. De uma maneira ou de outra, esses núcleos, compostos por personagens típicos, e que podemos entender como grupos de referência, tendem a se repetir ao longo de diferentes novelas. Uma mudança, contudo, tem despertado a atenção. Tal mudança diz respeito à introdução – ou maior presença – de núcleos e personagens relativos à vida universitária.
 
Nesse sentido, as novelas parecem sinalizar que o Brasil deseja ser um país que tem interesse pelo ensino de nível superior. Parecem, também, refletir a larga expansão do ensino superior ocorrida no país nos últimos anos sob os auspícios de toda a sorte de ação do Governo Federal.
 
Na novela “A Vida da Gente”, por exemplo, exibida pela Rede Globo em 2012 no horário das 18 horas, o médico Lúcio (Thiago Lacerda) inscreve-se para fazer um pós-doutorado. Já em “Fina Estampa”, novela das 21 horas, também exibida pela Rede Globo, e que antecedeu Avenida Brasil, não há apenas um personagem, mas vários vinculados à vida universitária. O maior número deles gravita em torno de uma faculdade de medicina onde há o professor e pesquisador Alexandre Lopes (Rodrigo Hilbert) que trabalha com neurologia, e os estudantes de medicina Patricia Velmont (Adriana Birolli), José Antenor da Silva Pereira (Caio Castro) e Daniel (Guilherme Boury). Além deles, porém não vinculada à área de medicina, há a professora de literatura Letícia Fernandes Prado (Tania Khallil). É raro um caso como esse, ou seja, uma novela com tantos personagens em cenas no cotidiano universitário.
 
A universidade tem servido apenas como pano de fundo para o desenvolvimento dos enredos das novelas. Não obstante, é importante observar como ocorre a presença de núcleos com vida universitária nas novelas, especialmente pelo que representam em termos de ocupação de espaço na vida social e por sua agência no que se refere à estrutura de consumo.
 
Referências Conexas
 
Adorno, T. W. (2002). Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra.
 
Bourdieu, P. (1998). On television. New York: New Press.
 
Hamburger, E. (2005). O Brasil antenado – a sociedade da novela. Rio de Janeiro: Zahar.
 
Merton, R. K. (1968). Social theory and social structure. New York: Free Press.