Algum tempo atrás, no final dos anos 1980, de vez em quando eu escutava alguém comentar o seguinte: "quem sabe faz; quem não sabe, ensina". Em geral, as pessoas de quem eu escutava esse tipo de comentário eram pessoas que transitavam no mundo acadêmico, porém eram ligadas ao mercado por meio de alguma atividade empresarial como gestor ou consultor. Eram os chamados acadêmicos-praticantes. Era uma época em que não havia o mesmo volume de oferta de cursos stricto sensu que existe hoje em dia, e que muitos professores tinham não mais que uma especialização, a chamada pós-graduação lato sensu. Tais professores, via de regra, ministravam aulas em período noturno. Em certa medida, é como se procurassem demarcar um território que compensasse a falta de uma pós-graduação stricto sensu. Naquela época, ter o título de mestre era algo raro, e ter o título de doutor era raríssimo. Alguns daqueles professores acreditavam que a experiência que possuíam nas atividades empresariais ou de consultoria fora da universidade era suficiente para lhes legitimarem no trabalho como professores. Costumavam dizer, ainda, que eles, sim, ensinavam a prática, e que outros ensinavam teoria. Com o passar do tempo e por meio da interação com outros colegas professores, e também por meio da interação com alunos que tínhamos em comum, pude perceber que, a rigor, vários desses professores mais falavam sobre os seus próprios trabalhos e atividades empresariais ou de consultoria, do que, de fato, ministravam o conteúdo programático das disciplinas pelas quais eram responsáveis. Desse modo, percebi que o professor A ou B não ministrava aula de X ou Y, mas sim falava o tempo todo da empresa K ou Z, onde exercia alguma atividade de gestor ou consultor. O tempo passou e hoje vejo que a prática de muitos desses profissionais, especialmente os consultores, mudou bastante no que tange a ideia de ensino. É curioso perceber empresas de consultoria e de pesquisa de mercado tentarem se posicionar no mercado como instituições de ensino, capacitação e treinamento. Várias delas oferecem cursos de metodologia de pesquisa, treinamento em pesquisa, e até mesmo se aventuram na oferta de cursos de MBA! Isso mesmo, você não leu errado: cursos de MBA. Como se não bastasse também tentam criar novos conceitos ou tipos de serviço como mentoring e coaching corporativo ou one shot consultancy. Como se diz popularmente, "o mundo não tem esquinas", ou ainda, "nada melhor do que um dia atrás do outro".
Comentários e observações sobre Cultura de Consumo, Marketing e Construção de Mercados
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domingo, 18 de março de 2018
sábado, 24 de julho de 2010
Bolsas de estudo na pós-graduação e remuneração em atividade profissional
No último dia 16 de julho, foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) a Portaria Conjunta Nº 1, relativa ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, que dispõe, em seu Artigo 1º, que “Os bolsistas da CAPES e do CNPq matriculados em programa de pós-graduação no país poderão receber complementação financeira, proveniente de outras fontes, desde que se dediquem a atividades relacionadas à sua área de atuação e de interesse para sua formação acadêmica, científica e tecnológica”. Esse post discute rapidamente o consumo dessa Portaria, relacionando-o à área de administração, em geral, e à área de marketing, em particular.
A publicação dessa Portaria, nesse momento, gera curiosidade porque, entre outras questões, estamos em período eleitoral para os cargos de presidente da república, governador de estado, senador e deputados federais e estaduais. De algum modo, parece que o governo do presidente Lula conseguiu desenvolver uma aproximação para com o mundo acadêmico maior do que aquela conseguida pelo seu antecessor, o presidente Fernando Henrique Cardoso, que paradoxalmente tem a sua origem profissional e militância política relacionadas à universidade enquanto universo institucional. A curiosidade, no entanto, pode ser expressada pela seguinte pergunta: a quem interessa a remuneração por meio de atividades profissionais a bolsistas da CAPES e do CNPq? É possível que interesse ao governo federal, por supostamente qualificar de modo mais rápido pós-graduandos das chamadas áreas duras e engenharias, cuja formação tem sido demandada pelo governo federal visando colocar o país em outro patamar de desenvolvimento tecnológico. Um outro interesse é possível vislumbrar sem muita margem de erro: tal remuneração interessa ao próprio pós-graduando.
No que tange ao segundo interesse, especificamente, a Portaria desperta a atenção por sugerir o consumo da ideia de que é possível estar matriculado em um curso de pós-graduação stricto sensu – assumindo todos os encargos decorrentes dessa ação – , e ao mesmo tempo desenvolver atividades profissionais relacionadas à área de atuação e formação acadêmicas. O consumo dessa ideia resgata e coloca em perspectiva uma enorme teia de questões ainda não resolvidas dentro do sistema de distribuição de bolsas na pós-graduação de um modo geral, em todo o país, e também coloca em perspectiva eventuais assimetrias dos próprios programas de pós-graduação, individualmente.
Logo de saída, a distribuição de bolsas traz em si o dilema de se adotar critérios de desempenho ou critérios sócio-econômicos. Alguns alunos não atendem os critérios sócio-econômicos, que via de regra prevalecem nos diferentes programas, mas têm desempenho superior àqueles que atendem tais critérios e, portanto, sentem-se injustiçados por não desfrutarem de bolsas. Esse sentimento é ainda mais forte entre alunos que não possuem bolsa, exercem atividades profissionais fora do curso de pós-graduação e ainda conseguem desempenho superior àqueles que são bolsistas.
Seria bom avaliar, sim, o aluno também pelo seu desempenho. Antes, porém, é preciso criar condições para que esse aluno tenha possibilidade efetiva de ter bom desempenho. Caso contrário, trataremos de forma igual os desiguais. Como o desempenho do aluno não é resultado de um único fator, ou seja, o fator individual, outras diferentes questões e aspectos, a exemplo não só de condição sócio-econômica, mas também de infra-estrutura e clima organizacional dos programas de pós-graduação, precisariam ser contemplados na análise.
Os critérios sócio-econômicos servem como uma diretriz, mas a bolsa também é vista como um prêmio para o aluno que se dedica em tempo integral e está integrado ao programa de pós-graduação. Infelizmente, contudo, isso não impede que ela possa ser usada politicamente dentro dos programas, seja para distribuição a alunos já conhecidos, por meio de efeito endógeno, seja para distribuição a alunos que são orientados por professores que estão mais próximos ao centro de poder dos programas, por meio de órgãos colegiados ou coordenações.
Apontar limites e encontrar problemas no sistema é sempre mais simples do que encontrar soluções efetivas para o mesmo e, mais que isso, conseguir implantá-las. Aparentemente, todos concordam que a distribuição de bolsas para alunos de pós-graduação não é exatamente uma tarefa considerada fácil nos programas de pós-graduação.
Posto isso, algumas breves considerações adicionais são aqui feitas. A primeira delas é que a exceção não faz a regra. Há alunos de pós-graduação na área de administração, que são, de fato, bastante produtivos, considerando-se o que se convencionou chamar como produtivo em termos de pontuação para o sistema Qualis da CAPES. Todavia, se os alunos publicam não é porque o fazem de forma natural, e sim porque o sistema os induz. Isso se dá, por exemplo, tanto por meio dos professores das disciplinas dos cursos, quanto por meio dos orientadores de teses e dissertações nesses cursos. No primeiro caso, solicitam papers ao final das disciplinas como forma de avaliação e também de oportunidade para o exercício acadêmico de síntese e problematização de conteúdos. No segundo caso, porque, no processo de orientação e interação com seus orientandos, avaliam como salutar a redação de papers oriundos das teses e dissertações, seja como uma forma de amadurecer o trabalho de pesquisa, seja como modo de ampliar a capacitação dos seus orientandos. Evidentemente, professores e orientadores se beneficiam com esse processo, especialmente devido ao exercício da co-autoria nos papers publicados. Não obstante, é preciso lembrar que isso decorre de orientações oriundas das coordenações dos programas de pós-graduação, as quais, em última instância, atendem à demanda das agências de fomento e avaliação. Afinal, os programas precisam ser avaliados e as próprias agências atribuem peso importante à interação entre alunos e professores no processo de publicação de papers. Apenas para pontuar, é importante lembrar que essa discussão se desdobra em torno de argumentos bastante eloqüentes de que parte substancial da publicação brasileira em administração, inclusive dos papers aqui mencionados, pouco acrescenta e apenas repete sinais e modelos antes publicados no hemisfério norte.
Um das faces do problema é que as agências brasileiras se espelham no que está fora. A área de administração, por sua vez, espelha-se nas chamadas áreas duras, que têm outra realidade quanto aos seus objetos de estudo e outra dinâmica quanto à publicação dos seus resultados de pesquisa, estando, ademais, à frente da área de administração. Faz-se referência aqui à condição de que estão à frente da administração em geral, pois a área de marketing, em particular, muitas vezes é vista com reservas pela chamada academia no Brasil. Para tanto, basta observar, por exemplo, a distância que existe entre a área de organizações e a área de marketing no Brasil. Isso, sem mencionar a diferença do nível de inserção nas agências de fomento e avaliação, capacidade de articulação política ou defesa dos interesses e criação de estrutura de trabalho e veículos de publicação na, da e para a área.
Aparentemente, é muito raro se fazer doutorado no hemisfério norte e trabalhar ao mesmo tempo. Simplesmente, o modelo é outro. Para os praticantes, para quem está inserido no mercado, existem outras modalidades de curso. Isso deveria ser levado em consideração pelas agências quando resolvem, por exemplo, copiar de modo oblíquo exigências relacionadas à produção acadêmica.
Na década de 1980 e até início da década de 1990, muitas dissertações em administração, em geral, eram verdadeiras teses de doutorado. É simples verificar isso: basta cotejar uma dissertação produzida naqueles anos com uma tese de doutorado produzida nos anos 2000. Certamente haverá mais semelhanças que diferenças.
Se, em nível de doutorado, é possível estudar e trabalhar ao mesmo tempo, há alguma coisa errada com a qualidade do curso, com a qualidade da tese de doutorado ou com a qualidade do trabalho desenvolvido profissionalmente.
Referências Conexas
FARIA, Alexandre de A. Crítica e cultura em marketing: repensando a disciplina. Cadernos EBAPE.BR, v. 4, n. 3, p. 1-16, 2006.
MELLO, Cristiane M. de; CRUBELLATE, João M.; ROSSONI, Luciano. Dinâmica de relacionamento e prováveis respostas estratégicas de programas brasileiros de pós-graduação em Administração à avaliação da CAPES: proposições institucionais a partir da análise de redes de co-autorias. Revista de Administração Contemporânea, v. 14, n. 3, p. 434-457, 2010.
VELLOSO, Jacques. Mestres e doutores no país: destinos profissionais e políticas de pós-graduação. Cadernos de Pesquisa, v. 34, n. 123, p. 583-611, 2004.
VIEIRA, Francisco G. D. Panorama acadêmico-científico e temáticas de marketing no Brasil. In: XXIV ENCONTRO ANUAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO (2000: Florianópolis). Anais ... Marketing. Rio de Janeiro: ANPAD, 2000. (Versão integral em CD-ROM do Evento)
VIEIRA, Francisco G. D. Latindo atrás do Lattes, Revista Espaço Acadêmico, v. 7, n. 73, junho/2007. (revista eletrônica: http://www.espacoacademico.com.br/073/73vieira.htm)
segunda-feira, 8 de março de 2010
Consumo de MBAs
No início da década de 1990, quase como uma decorrência da abertura da economia e do maior nível de competição que empresas brasileiras começavam a experimentar, instituições de ensino superior intensificaram a oferta de cursos de MBA – Master in Business Administration. A nomenclatura, no idioma inglês, decorre da origem estadounidense do curso. No caso brasileiro, o MBA é um curso voltado basicamente para o treinamento, capacitação ou atualização de executivos ou profissionais, de um modo geral, que atuam em organizações privadas e públicas. Alguns desses profissionais não tem a área de negócios – administração e economia, por exemplo – como área de formação básica, e muitas vezes essa é a principal razão para frequentarem um curso de MBA, ou seja, a oportunidade de adquirirem conhecimentos sobre negócios sob uma perspectiva que não apenas aquela do cotidiano das organizações em que trabalham.
Em tese, o MBA é um bom curso e pode, de fato, contribuir significativamente para a formação profissional daqueles que o frequentam. O problema é que atualmente sofre um processo de banalização desenfreada. Até mesmo a condição do grau de especialização que é conferido àqueles que o concluem fica sob suspeição devido ao tipo e formato de cursos que tem sido oferecido no mercado da educação.
Instituições de ensino, de caráter privado, tem oferecido cursos de MBA pelo Brasil afora, com um único encontro por mês para a realização de aulas, e prometem que seus alunos alcançarão posição de destaque em suas organizações, como também alcançarão a excelência. Via de regra, tais cursos são oferecidos por meio de parcerias com empresas locais ou regionais de consultoria que resolveram adentrar o ramo da educação continuada e que não tem tradição ou know how em educação ou ensino superior.
O resultado desses cursos, para quem passou da fase da ingenuidade, é que eles criam a expectativa de entregar um produto que de fato não entregam. Profissionais que se tornam alunos, cheios de boa vontade, criam uma expectativa que não chega a se concretizar, pois, entre outras coisas, os cursos são oferecidos como commodities para todo o país.
Referências Conexas
ANTONELLO, Cláudia S.; RUAS, Roberto. Formação gerencial: pós-graduação lato sensu e o papel das comunidades de prática. Revista de Administração Contemporânea, v. 9, n. 2, p. 35-58, 2005.
DATAR, Srikant; GARVIN, David A.; CULLEN, Patrick G. Rethinking the MBA: business education at a crossroads. Boston: Harvard Business Press, 2010.
FRENCH, Robert; GREY, Christopher. (Eds.) Rethinking management education. London: Sage, 2009.
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